Sobre o blog

I Want To Know What It's Like




EU QUERO SABER COMO É
(Tradução livre)

Eu quero saber como é...
Ser normal. Ser aceito. Ser Humano. Ser igual. Ser livre.
Eu quero saber como é...
Ser aberto. Ser ouvido. Ser amado. Ser feliz. Ser eu.
Eu quero saber como é...
Sentir que pertenço.
Sentir que sou forte.
Que quem eu sou não é errado.
Eu quero saber como é...
Saber que estou aqui.
Que resistirei o ano todo.
Saber que não desaparecerei.

Eu quero saber como é... 
Não ter que lutar.
Ter um final em vista.
Fazer o que está errado ficar certo.
Eu quero saber como é...
Ser capaz de acreditar.
Em um poder superior que não vê.
A mim como pecado ou sodomia.

Eu quero saber como é...
Ter liberdade e justiça para todos.
Derrubar esse muro divisor.
Remover homofobia da lei.
Eu quero saber como é...
Ter um sentimento que não seja triste
Ter algo que nunca tive.
Ter uma criança que me chame de papai.

Eu quero saber como é...
Não me sentir como um anormal
Não sentir que sou fraco
Não ser silenciado quando falo
Eu quero saber como é...
Viver além da porta de um armário.
Ver meu pai mais uma vez.
Mostrar a ele que não sou quem eu era antes.

Eu quero saber como é...
Doar o sangue das minhas veias.
Mas porque sou gay tenho que abster-me.
Por que minha sexualidade tem a ver?
Eu quero saber como é...
NÃO ser expulso da escola.
Não me fazerem parecer um bobo.
Como a homossexualidade é quebrar uma regra?!

Eu quero saber como é...
Desfazer o que tem sido feito a mim.
Dar visão a aqueles que não podem ver.
Que eu não sou menos que um ser humano.
Eu quero saber como é...
Não ser considerado uma doença.
Não ter uma maioria que eu tenho que agradar.
Expressar livremente minha individualidade.

Eu quero saber como é...
Viver numa terra verdadeiramente da liberdade.
Não uma terra que me exclui.
Não é assim que deveria ser!

Eu quero saber como é...
Não ser o alvo da intolerância.
Não te ter questionando minha sanidade
Não sucumbir à sua superioridade!

Eu quero saber como é...
Superar todos meus medos.
Não chorar essas lágrimas incontáveis.
Que foram derramadas ao longo dos anos.
Eu quero saber como é...
Aprender sobre líderes gays do passado.
Nas minhas aulas de história da escola.
Alguém pode por favor me dizer o que há de errado nisso?!

Eu quero saber o que é...
Ter orgulho.
Não ter que esconder.
Não ter que mentir toda minha vida.
Não ter minha sexualidade negada.
Eu quero saber como é...
Não sentir essa dor por dentro.
Não ter esses pensamentos em minha mente.
Não pensar em suicídio.

Eu quero saber como é...
Ter essa dor em mim diminuída.
Curar essa ferida que sangra por dentro.
Ter de volta as lágrimas que chorei.
Ter de volta os anos que tentei.
Trazer de volta a vida que morreu.
Unir a divisão desse mundo.
Fazer mudar a passos largos.
Não estar abaixo, mas ao lado.

Eu quero saber como é...
Ter essa escolha que você diz que é minha.
Ter ciência e religião entrelaçadas.
Ter amor redefinido.
Eu quero saber como é...
Ter um governo que não vai instaurar
Leis injustas que provocam ódio
Por medo da sociedade se desintegrar.

Eu quero saber como é...
Viver num mundo sem ódio.
Um mundo que não discrimine. 
Um mundo em que eu possa me sentir seguro.
Seja eu gay, bi ou hétero.
Esse é o mundo que temos que criar!!!
Essas são as decisões que temos que tomar.
Essas são as ações que temos que implementar.
A hora é agora, não podemos, não devemos, não iremos esperar.

Eu quero saber como é...
Ter oportunidade igualitária.
Conhecer total igualdade.
Ser uma humanidade.

Eu quero saber como é...
Ser tratado igualmente por meus pares.
Ficar ao lado de todo queer...
À beira de uma nova fonteira.

Uma fronteira onde ninguém vai ditar.
Uma fronteira onde não haverá debate.
Uma fronteira onde todos poderão se relacionar.
Uma fronteira feita de amor e não ódio.

Eu quero saber como é...
Abrir teus olhos para que  você possa ver.
A forma que esse mundo tinha que ser.
Nós não somos tão diferentes, eu & você.



Há alguns dias esse vídeo chegou ao nosso conhecimento. Achei uma bela iniciativa, que com certeza soma às lutas a favor da igualdade. Uma das coisas mais inteligentes desse vídeo é que mostra que o público queer, que por si só já é considerado um grupo diverso por causa da sexualidade e identidade de gênero, é um grupo de pessoas que guarda a característica principal de um grupo de pessoas: suas diferenças. É triste ter que, em conversas com algumas pessoas, lembrar que o público queer é formado por PESSOAS, seres diferentes entre si. São as minorias dentro da minoria.

De toda sorte, achei válido compartilhar com vocês esse vídeo.

Dividindo o mundo em caixinhas



Rótulos são facas de dois gumes. Quando precisamos falar de um movimento, de um grupo de pessoas, ou coisas do tipo, rotular é útil. Definir para as pessoas que existem gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros ajuda, porque o ser humano têm essa necessidade de dividir tudo em coisas muito específicas para poder simplesmente começar a pensar sobre o assunto. O problema é que, como talvez você já tenha percebido na frase acima, existem muitos outros conceitos entre esses poucos que eu citei, mas são esses poucos que formam a sigla do movimento LGBT+.

Há alguns anos, a única sigla que eu conhecia era GLS - gays, lésbicas e simpatizantes. Depois eu vi GLBS - agora incluindo bissexuais. Um tempo depois o S saiu e entrou o T, e uma decisão recente da ABLGBT colocou o L na frente pra chamar mais atenção para a causa lésbica. Esse é só um exemplo de como definir pessoas pode ajudar outras a entender do que se trata um movimento.

Eu gosto de fazer uma analogia com caixas pra tentar explicar o que é um rótulo. É como se dentro da cabeça de todo mundo houvesse várias caixinhas, geralmente em pares. Em cima de cada caixinha dessas existe um rótulo: homossexual (essa se desdobra pra outras duas: gay e lésbica), heterossexual, gordo, magro, negro, branco, bonito, feio, rico, pobre, etc. A divisão é quase sempre binária. Dentro de cada uma dessas caixinhas está um pensamento pré-definido - um julgamento. O que acontece é que, quando uma pessoa te acha feio, por exemplo, ela automaticamente pega o pensamento que tá dentro da caixinha “feio” e aplica a você. São como primeiras impressões enlatadas - o problema é que não são primeiras impressões de verdade, pois já estavam lá bem antes de você.

Se você diz que é bissexual, você confunde as caixinhas. Porque é como se você fosse hetero e homo “ao mesmo tempo”, e não pode, só dá pra usar uma caixinha por vez. Se você é transgênero, as pessoas não sabem se te colocam na caixinha “homem” ou “mulher”, não sabem se te colocam em “homossexual” ou “heterossexual”, porque acham que é alguma coisa no meio, e nos pré-julgamentos não existe meio termo. Ou é isso ou é aquilo, e toda característica acaba caindo nessa armadilha; algumas, como as que eu citei, mais do que outras.

Todos os dias novos termos e conceitos aparecem. No mundo ideal eles provavelmente não seriam necessários, mas hoje em dia são. Isso acontece porque em determinados grupos as pessoas não precisam explicar e definir para as outras se gostam disso, daquilo, se são assim ou assado. Mas, de modo geral, é fácil perceber que isso é muito pontual e fora desse grupo de repente a necessidade de definição se torna tão necessária que você praticamente não existe em sociedade se não puder ser colocado em alguma caixa.

Talvez um dia seja tão desnecessário explicar a sexualidade queer quanto hoje é desnecessário explicar a heterossexualidade - a grande maioria das pessoas nunca realmente pára pra pensar por que é hetero, ou se escolheu ser hetero, ou em que momento da vida percebeu ser hetero. Talvez um dia a identidade de gênero não seja mais confundida com a sexualidade. Apesar de tudo que se vê por aí e apesar de muitas vezes pensar que está piorando, eu costumo ser otimista e pensar que, mais dia menos dia, as mudanças acontecem. 

Perua ou o Esquadrão do siga as regras

"Se você quiser alguém em quem confiar confie em si mesmo"





U
m dos piores tipos de sexismo é aquele disfarçado. É o pior porque normalmente quem vê não percebe, acaba achando que aquilo ali é o correto, e que todas as pessoas devem agir assim. Recentemente um programa de TV tem atraído minha atenção de uma forma negativa. Não vou falar o nome dele para não dar mais audiência (haha), porém, percebo que ele não é o primeiro, e definitivamente não será o último, programa disposto a ajudar as pessoas a mudarem de vida. Essa mudança de vida é estética, é a mudança daquilo que os outros vêem e os incomodam naquela pessoa que está sob os cuidados dos profissionais da atração.


Vi um episódio em que uma garota teve que renovar o guarda-roupa porque ela usava roupas masculinas e prezava demais pelo conforto. A garota era hétero, tinha um noivo há anos, tinha amigos, PORÉM, alguns amigos achavam necessário que ela mudasse sua forma de vestir para uma mais feminina. Outro episódio era estrelado por uma garota que algumas pessoas chamam de pirigótica. A mudança dela era de estilo de vida. Ela tinha que ser menos exagerada para poder manter um namorado, pois seu estilo extravagante assustava os garotos.

Devo assumir que não consegui ver até o final nenhum desses programas, pois assim que anunciavam nas chamadas a mudança e elogiavam a menina por ter se submetido aos desejos dos amigos nascia uma revolta amarga em minha garganta. E quando apareciam os amigos dizendo "Agora sim!" dava vontade de dar uns tabefes pra ver se esse povo acorda pra vida.

Esse programa quer mudar a vida das pessoas (pois também tem garotos, apenas nunca vi) para que elas sejam aceitas pelos seus amigos, ou arrumem um namoro. A mensagem subliminar é: você não está certo desse jeito que você é, você deve se encaixar nesses padrões senão você não satisfará as pessoas - e você precisa satisfazer as pessoas. É mais uma mostra de quão rasa é nossa sociedade, que por um lado prega a igualdade das diferenças e pelo mesmo lado prega que você pode ser diferente, mas não muito. Só se pode ter algo para te fazer uma pessoa diferenciada, não fora dos padrões, pois estar fora dos padrões é caminho certo para a solidão. E ninguém quer estar só.

Tenho pena dessas meninas que submetem a esse tipo de programa, se sujeitam a mudar quem são para satisfazer outras pessoas. Nós sempre estamos mudando, evoluindo ou regredindo, mas em constante mudança, porém, qualquer mudança forçada por um fator exterior tende a ser desprezada assim que esse fator exterior não existe mais. Amigos podem deixar de ser amigos, namorados podem deixar de ser namorados, mas você não deveria deixar de ser você. Principalmente para satisfazer os outros.

O Renato Russo fez uns versos que gosto muito, são esses: "Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá". Ensinam que você deve mudar para ser aceito, quando deveriam era ensinar aos outros para te aceitarem do jeito que você é. E maquiam tudo de uma forma tão moderna que parece que eles estão te ensinando a ser descolado, a ser a última bolacha do pacote, quando estão te fazendo ser mais uma bolacha numa fábrica de biscoito.

Pena.

Quando o sapatinho de cristal não serve mais

Os contos de fada são o primeiro tipo de ficção com que geralmente entramos em contato quando crianças; e eles não escondem a intenção de nos deixar uma lição. É sobre essas lições e o que elas representam que o Ewerton escreveu. Como a Rebeca disse uma vez, nos fazem acreditar que precisamos ser princesas, mas será mesmo?

*

N
enhum ser humano resiste a um final feliz. Quando se é criança e se assiste àquele filme em que a princesa e o príncipe vivem felizes para sempre, seus olhos brilham e você começa a acreditar naquilo que vê. Mas chega o dia em que a vida mostra que as coisas não são bem assim.

Esses filmes trazem estórias de magia, amor e esperança que acabam conquistando o melhor lado de cada um de nós. Mas muitas vezes a forma como essas estórias são colocadas acabam sendo um problema. pois elas acabam levando para nós, principalmente enquanto crianças, um senso comum que acaba vindo na garupa do cavalo do príncipe, verdades tidas como absolutas que absorvemos sem perceber e que muitas vezes carregamos para o resto da vida.

Por esse motivo, resolvi rever alguns desses clássicos e escrever sobre alguns valores deturpados que eu acredito que eles transmitem. Aqui o que está em questão não é a qualidade dos filmes enquanto cinema, mas o que eles acabam levando a nós enquanto forma de comunicação. Minha intenção não é condenar ou sequer desmerecer os filmes aqui citados, mas apenas lançar um ponto de vista mais maduro e estritamente pessoal sobre os mesmos. Afinal de contas, não sou mais a mesma pessoa que viu esses filmes pela primeira vez. Dito isso, vamos aos filmes.

Comecemos com Cinderela, o clássico máximo da Disney, do qual a empresa pegou emprestado seu icônico castelo. No filme, a maldade da madrasta é justificada com o argumento de que ela sentia inveja da beleza de Cinderela, coisa que suas filhas nasceram sem. Enredo parecido vemos em Branca de Neve, em que a bruxa faz o diabo porque descobre que não é a mulher mais bonita do reino. 

É assustador como as mulheres são sempre lembradas de que podem e devem sentir inveja da beleza umas das outras, muitas vezes para não perder seus homens ou para não ficar para a titia, como se elas não pudessem ser felizes sozinhas ou morando com a tia em questão. Curiosamente, você dificilmente encontrará esse tipo de enredo entre dois homens, porque o fato de um homem simplesmente reconhecer que outro é bonito faz com que sua masculinidade seja colocada em xeque, como se seu nível de testosterona definisse seu gênero ou seu caráter.

Mas o maior problema é a associação do belo com o bem e do feio com o mal. O melhor exemplo disso é a madrasta ter um gato de estimação chamado Lúcifer. Essa associação chega a ser instintiva, mas o mundo já está bem grandinho para saber que essa é uma faca de dois gumes bem afiados. Foi por isso que ele deixou de fazer essa associação tão descaradamente e passou a associar o belo com o bom e o feio com o ruim. Assim, todos concordamos que uma pessoa considerada feia não é necessariamente má, mas caso ela tivesse um traseiro mais cheio ou músculos maiores, ela com certeza seria mais bonita e, portanto, feliz. Nem preciso dizer que essa dicotomia maniqueísta é mais furada que os argumentos dos filmes do Adam Sandler.


Com o passar do tempo, Cinderela virou sinônimo de gata borralheira. Ao rever o filme, tive acessos de risos involuntários durante as cenas em que ela faz os serviços domésticos. Fazer a faxina nos filmes Disney é sempre muito romântico ou divertido, sempre com muita música, animais bonitinhos, e móveis que ganham vida. Agora senta aqui do meu lado e vamos pensar numa coisa. 

No filme a principal opressora de Cinderela é a madrasta – é ela quem manda Cinderela limpar, varrer, lavar, passar e cozinhar. Mas troquemos a madrasta. Coloquemos um homem em seu lugar, seja o pai, o marido ou o irmão. Em um passe de mágica tudo ganha um aspecto muito mais condizente com a realidade, não é mesmo? Mas é claro que o homem não poderia ser vilanizado, pois em certa escala isso vilanizaria o machismo. Seria bastante difícil mostrar a sua filha que existem homens que oprimem as mulheres dessa forma e depois mandá-la fazer o jantar – temos 2. Mas seria muito ruim mostrar a essa mesma garota as tarefas domésticas como uma coisa ruim, haja vista que são essas mesmas tarefas que ela deverá realizar para o resto de sua vida. Coloquemos então um pouco de magia para que a coisa toda não pareça tão ruim quanto é – mais 2. Faça as contas.

Em Branca de neve e os sete anões, dito o primeiro filme colorido da história do cinema, o que mais me salta aos olhos em são os anões. Em todos esses filmes, quando os protagonistas possuem amigos humanos (não se finjam de desentendidos, animais bonitinhos), eles sempre fogem ao padrão de beleza que cabe somente aos donos da estória – são, de alguma forma, diferentes, sejam gordinhas como as fadas madrinhas, magros como o lacaio desastrado, ou simplesmente baixinhos como os anões. O que me incomoda é que a felicidade desses personagens está sempre associada única e inteiramente a dos personagens principais, como se quem fosse diferente não pudesse ser protagonista de sua própria vida e, portanto, senhor de sua própria felicidade. Esses estereótipos são tão fortes que você os encontra em nove entre cada dez comédias produzidas pela indústria cinematográfica americana. E me refiro às comédias porque, se eles são diferentes dos protagonistas, geralmente são imediatamente rotulados como alívio cômico. Resumindo, se você for diferente, tem que ser engraçado (quase como uma obrigação, para compensar sua aparência) ou infeliz (caso você não seja muito bom em contar piadas). 

E o que dizer do príncipe? Como o que acontece em muitos desses filmes aqui citados, ele não possui qualquer tipo de desenvolvimento. A única coisa que sabemos é que ele é bonito e podre de rico e aparece apenas no fim, sendo quase confundido com os créditos finais. E apesar de toda essa superficialidade, de alguma forma ele é a solução para todos os problemas da estória. Sendo bonito e rico, os garotos são desde cedo levados a pensar que sua felicidade está atrelada àquele padrão de beleza e status; sendo a solução para os problemas da mocinha, as garotas são convidadas a esperar esse homem em um delírio que muitas vezes dura a vida toda. Elas são estimuladas a agirem como princesas, esperarem passivamente pelo homem de seus sonhos, pois só assim serão salvas, só assim terão um amor e só então poderão ser felizes para sempre. Isso, é claro, levando em consideração que toda garota quer ser e agir como uma princesa, gosta de homens, sonha com um, precisa ser salva, quer viver um amor e só poderá ser feliz vivendo com um. Me parece um grupo bem reduzido.


Fiquei surpreso ao rever A Bela Adormecida, talvez porque o foco da estória está sempre nas três fadas que cuidam de Aurora, e não na princesa em si, o que inibe muitos problemas. A cena em que elas costuram um vestido e fazem um bolo sem ajuda de magia como presente para a afilhada é impagável. Aqui o príncipe ganha espaço, sendo inclusive introduzido ainda criança. Se na maioria das outras tramas o romance é unilateral, mostrando apenas a princesa, aqui é bilateral, com a história passeando entre a vida do casal. 

Mas atento para o fato de Aurora ter conhecido o príncipe no meio de uma floresta, cantado uma canção com ele e ter se apaixonado para o resto de sua vida imediatamente. Dito assim parece um absurdo, mas em todas as novelas da faixa das nove no Brasil, a cena em que o casal principal se encontra é essa mesma cena revisitada, e ninguém parece estranhar. E no fim, temos o tal beijo do amor verdadeiro dado enquanto a princesa está desacordada. Romântico?  

Para todos os efeitos, há algum tempo ocorreu um estupro em rede nacional. Em menos de vinte e quatro horas, vi pessoas compartilhando na internet imagens do príncipe beijando Aurora ainda adormecida, alegando que, se o homem que estuprou estivesse errado, o príncipe teria sido preso. Elas compartilhavam isso como argumento de que o homem estava certo por agir como um príncipe de um conto de fadas. Curiosamente, no conto original, Aurora é estuprada enquanto dorme.

De todos os clássicos da Disney, meu preferido é A Bela e a Fera. A cena em que os dois dançam juntos está entre as minhas preferidas de todo o cinema. E de todos os filmes citados aqui, A Bela e a Fera talvez seja o melhor. Para começar, Bela não é tão vitimizada quanto as outras princesas pelo simples fato de não ser totalmente passiva, indo inclusive atrás de seu pai quando este desaparece. E não é todo dia que você encontra uma princesa da Disney que gosta de ler. Nos papéis masculinos temos uma inversão do que sempre foi mostrado até então: aqui o príncipe é uma fera, enquanto o moço bonito revela-se vaidoso e mesquinho, mostrando que a personalidade das pessoas nada tem a ver com sua aparência. 

A Bela e a Fera é uma das histórias de amor mais bonitas já contadas porque nos lembra que devemos amar as pessoas por quem elas são, mas todas as vezes em que revejo o filme fico com um gosto amargo no fim, um tiro no pé sem direito a morfina. A despeito do desfecho quase obrigatório que cabe aos filmes Disney, com ressurreições improváveis ou milagres bíblicos similares, o que mais me irrita é o fato da Fera voltar a ser o príncipe no sentido mais disneyficado da palavra. Quando a Fera volta a ser o homem alto, loiro e bonito por causa do amor de Bela, o filme quer nos dizer que o amor é transformador, mas acaba gritando que eles não poderiam ser felizes sem que suas aparências fossem boas o bastante para estamparem a capa da Vogue. Shrek, da Dreamworks, tem o final que A Bela e a Fera não tem. 

É muito importante lembrar que nem todas essas ideias são introduzidas pelos filmes. A maioria delas são apenas um reflexo da psique da sociedade naquele determinado período de tempo. O problema é que quando esses filmes são apresentados à próxima geração, ela acaba absorvendo formas de pensar da geração anterior. Como os filmes são sempre apresentados a cada geração que surge, o que temos é a perpetuação de um conjunto de valores há muito ultrapassado. 

A verdade é que todos esses filmes nos ensinam que não podemos esquecer de acreditar, de amar, de sonhar. São valores importantes para qualquer um, mas nada nos impede de fazer isso de uma forma cada vez melhor. Da mesma forma que aprendemos a não aceitar maçãs de estranhos, devemos aprender que não se compra valores de um filme apenas por ele vir embalado com um felizes para sempre. Porque sempre chega o dia em que o sapatinho de cristal não cabe mais. E quando não se troca de sapatos quando isso acontece, os calos surgem num passe de mágica.

Legalização do aborto de anencéfalos: um avanço e um lembrete


Não me lembro de em momento algum ter visto uma discussão sobre aborto em que não houvesse a pergunta "Mas você abortaria?". Essa pergunta é usada muitas vezes como uma espécie de "argumento infalível", pois se a sua resposta é "Sim, eu abortaria", você é uma assassina, e se você responde "Não, eu não abortaria", você é uma hipócrita por ser pró-escolha e decidir não fazer um aborto.

Acontece que é muito comum que nessas discussões - principalmente quando o assunto está tão em voga como agora, que o Supremo Tribunal Federal decidiu pela legalização do aborto de fetos anencéfalos - que se esqueça o significado da palavra escolha. Costuma-se dizer que a legalização do aborto é uma causa egoísta, mas esquece-se que existe um individualismo gritante no ato de reduzir toda a questão àquela simples pergunta que eu citei ali no começo.

"Eu não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las" é uma citação de Voltaire que você certamente já deve ter visto em algum lugar. Fazer o paralelo não é difícil: eu tenho o direito de, no caso de uma gravidez indesejada, não decidir fazer um aborto, mas isso não implica em momento algum que eu tenha o direito de decidir isso por outra pessoa.

A decisão do STF hoje diz respeito aos fetos anencéfalos, que são aqueles fetos que não tiveram o cérebro formado; eles têm apenas o tronco cerebral, e invariavelmente morrem pouquíssimo tempo depois de nascerem. A partir de hoje, a legislação do aborto no Brasil fica da seguinte forma: é legalizado no caso de gravidez resultante de estupro, risco de vida para a mulher e no caso de anencefalia. Para todos os outros casos o aborto é criminalizado, com pena de três a dez anos. 

A maior parte do apoio e da argumentação para a criminalização vem de grupos religiosos; esbarramos mais uma vez no estado que deveria ser laico. Baseadas no argumento religioso, muitas pessoas escolhem ignorar o fato de que o aborto é, afinal, uma questão de saúde pública. Impor a obrigação de gerar um filho indesejado a todas as mulheres que não tem condições físicas, psicológicas, econômicas ou de qualquer natureza e não dar o mínimo de ajuda a todas aquelas que morrerão ou ficarão gravemente feridas ao tentar um aborto em condições precárias não é cabível - e não vamos também esquecer do fato de que a grande maioria das pessoas que são contra a legalização do aborto é composta por homens.

Hoje demos um bom passo para o avanço dessa questão da legalização, mas também não vamos esquecer da semelhança desse caso com o da decisão sobre a união estável homossexual; a legalização do aborto de anencéfalos não descriminaliza todos aqueles outros casos que não estão previstos na lei, assim como a união estável ainda não é a mesma coisa do que o casamento civil. Ambas são conquistas importantes que devemos comemorar por ser um avanço, mas sem nunca achar que a luta acaba aí. A pergunta que sempre continua, afinal, é: por que precisamos mesmo lutar pelos nossos direitos básicos?

Profissão de mulher?


Constrangimento, abusos, cantadas, chantagem, zombaria e até mesmo favorecimento. Essas são algumas das coisas pelas quais muitas mulheres passam quando estão na faculdade - especialmente se for uma faculdade de Exatas, área normalmente dominada pelos homens.

Para toda atividade que você puder imaginar, o complemento “é coisa de homem” ou “é coisa de mulher” pode ser adicionado. Cuidar da casa é coisa de mulher. Ser engenheiro é coisa de homem. Ser professora de primário é coisa de mulher. Ser professor de Física é coisa de homem, e por aí vai. Mas, como se pode imaginar também, não são todas as pessoas que se encaixam nisso. Muitas mulheres fazem - e gostariam de fazer - atividades que são comumente ligadas a homens, e vice-versa. A diferença é que o homem, quando exerce a atividade de uma mulher (por exemplo, a de ser babá ou empregado doméstico), é visto como uma pessoa que está se rebaixando. A mulher, no entanto, quando exerce a atividade comumente ligada ao homem, é vista como a pessoa que está tentando invadir o espaço masculino.

Um desses espaço é a área de Exatas. Física, Matemática, Computação, Engenharias, Tecnologia em geral, e muitas outras são terrenos quase que exclusivamente masculinos. Diz-se que a procura feminina por esses cursos não é alta porque as mulheres não se interessam mesmo por essas coisas e/ou não têm capacidade de fazê-las. Bem, eu me pergunto se já não imaginaram que nós simplesmente não somos incentivadas a querer essas coisas. Como se pode perceber depois de refletir um pouco, o que se considera como brincadeira de menina costumam ser tudo aquilo que se refira a cuidar de alguém ou alguma coisa – são muito menos áreas de estímulo do que os meninos costumam receber na infância. Mas, como se não bastasse a falta de incentivo, quando por fim decidimos que, sim, é isso que queremos para as nossas vidas... continuamos sem estímulo algum.

Geralmente, existem poucas professoras nos cursos de Exatas. Menos ainda se contarmos apenas com as cadeiras técnicas. Ou seja, o cenário é de uma maioria absoluta de homens, sendo ensinados por homens, com umas duas ou três mulheres pingadas aqui e ali. Alguns desses professores - como poderia acontecer em qualquer outro curso de qualquer outra área, mas dado o contexto - se aproveitam do fato de ser uma figura de poder, outros perpetuam o preconceito sem nem sentir que estão fazendo alguma coisa de errado, como é comum.

Eu estudo nessa área há quase cinco anos. E, durante todo esse tempo, não faltaram professores para perguntar coisas como “mas é isso mesmo que você quer? você vai se formar mesmo?” ou “tem certeza que entendeu?” de cinco em cinco minutos, e rir quando eu dizia que, sim, tinha entendido. Professores que não acreditam que você seja capaz de permanecer num curso desses pura e simplesmente por ser mulher existem aos borbotões. Assim como aqueles que lhe dão pontos na prova de acordo com o decote que você estiver usando no dia. Assim como aqueles que acham que estão fazendo uma coisa muito boa ao fazer vista grossa para qualquer coisa errada que você tenha feito - “mas ela é mulher, deixa pra lá” - e aqueles que vão cobrar ainda mais só para provar um ponto - o de que você não é capaz.

A mulher inserida nas “áreas dos homens” é um enfeite e uma piada. Já vi turmas inteiras - de homens - comemorarem o fato de haver uma mulher na turma. Já vi mulheres serem assediadas constantemente porque são a única mulher da turma. Já vi apostas para ver quando uma mulher desistiria do curso. Já ouvi coisas do tipo “só tem mais mulher em Telecomunicações porque elas pensam que é telemarketing”, “ela deve ter entrado aqui por engano”, “eu achei que você fosse lésbica porque nunca te vi olhando pra ninguém”, “ela deve ter dado pro professor pra conseguir esse estágio”, entre outras coisas que fazem desse um ambiente naturalmente misógino.

Misoginia é o ódio ou desprezo por tudo que é relacionado ao feminino; ou seja, é a base do preconceito sexista. Não é incomum reparar que em ambientes assim haja uma espécie de rejeição à feminilidade; homens e mulheres acabam absorvendo a ideia de que a menina que conseguiu se mesclar melhor entre os homens (ou seja, parecer menos “feminina”) é aquela que possivelmente está mais interessada no curso.

Esse não é o único problema do ambiente acadêmico e também não é o único que persiste fora dele. Nós ficamos surpresos quando vemos uma motorista de ônibus ou uma pedreira porque nos acostumamos a pensar que isso não é coisa de mulher, que exige uma força que não temos, que estamos destinadas a outro tipo de serviço.

Não estamos destinados a um serviço x ou y por motivo algum – seja ele a binária de gênero ou qualquer outro. Devemos fazer o que quisermos, nos basear nas nossas próprias decisões e não se deixar guiar pelo preconceito. Parece simples e clichê, mas é um dos conceitos mais difíceis de ser absorvido no mundo. Mas continuamos lutando para que ele seja entendido.

Videogame e homofobia

Este aqui é um post feito pelo Ranadin, um amigo que teve o desprazer de testemunhar a homofobia num meio em que muitos participantes gostam de se identificar como superiores intelectuais. Eu nem vou comentar nada, porque o que ele relata nesse texto é tão revoltante e errado que nem tenho por onde começar.
Obrigada, Ranadin, por compartilhar conosco tua revolta.




Creio que os gamers da praça já estão cientes das novidades que entrou em Mass Effect 3, não é verdade? Para os não-gamers, eu explico. Mass Effect é um sci-fi RPG¹ em que seu personagem é customizável. Sexo, aparência, tudo mais. Como ele possui diálogos por voz, p/ evitar problemas de gênero, o personagem simplesmente é chamado pelo sobrenome - Shepard. E no jogo há a possibilidade da construção de romances, tendo até cenas de relações sexuais entre os personagens. E há bem pouco tempo foi lançado Mass Effect 3, e nele veio a possibilidade de construir relações gays entre os personagens. Beleza. Capítulo final da trilogia, gameplay bom, e um adendo que há muito se pedia. A IGN² deu 9.5 de 10, enquanto a Gamespot² deu 9.0 de 10. Recepção lezgalz, né?

“Qualquer um que defender este jogo é demasiado jovem para jogar jogos bons ou retardado homo-amante, pois em vez de você encontrar o romance, neste jogo o romance praticamente encontra você, para não mencionar o todo-demasiado-famoso DA2 (Dragon Age 2) onde o personagens obriga o amor gay em cima de você.”
“Shepard só pode estar doente = gay? O jogo é um fracasso total” 
"Eles estão tentando forçar a homossexualidade, dizendo-nos que ser etero é má escolha (se você optar por não ter relações sexuais com homens será como uma opção de renegado)"
“Why? Why can't a character just be straight? Is that so offensive?
If a character was gay for two games and had straight options in the next people'd be furious.”

NÃÃÃÃÃÃOOO!!!! Como vocês podem ver, boa parte dos personas ficaram de picuinha porque você pode fazer o Shepard ser gay (detalhe: nos dois primeiros jogos, a opção já era válida se você escolhesse a Shepard feminina – e sob condições muito restritas, mas era possível). Porque, afinal, isso é um vídeo-game e vídeo-game é coisa de homem, e lalala. Esses gays, hah! Video-game não é mais o que era antes, agora é coisa de frutinha, né?

Meu, os caras vão deixar de jogar Mass Effect 3 só porque o protagonista agora PODE ser gay? É isso? Sério. No jogo, você tem as janelas de diálogos, nas quais você pode escolher o caminho que você quer que o Shepard siga. E, se você quer que o Shepard seja hétero, basta simplesmente escolher! As mecânicas do jogo dão essa opção, então use-a! O jogo dá a opção de romance. Por que não ter as duas formas, já que há jogadores que abrangem as duas frentes? O circuito gamer anda tão infectado assim por esse tipo de gente, sério? O circuito gamer é um que vem há anos batalhando contra preconceitos em relação aos jogos e a comunidade. Mostrar que é não é algo simplesmente infantil ou achar que um criminoso é criminoso por causa de um FPS³. Há anos a comunidade vem tentando mostrar que games podem trabalhar temas sérios. Aí, quando um assunto sério e delicado como esse entra em questão, os jogadores reagem assim? Anos de labuta jogados fora. Como lutar contra um preconceito quando uma boa parcela está carregada de outros? E ainda por cima completamente injustificados e sujos?

Não posso afirmar com categoria sobre como o tema é tratado lá dentro, pois ainda não tive a oportunidade de jogar a série, coisa que gostaria de ter feito para argumentar com maior propriedade (o máximo de contato que tive com Mass Effect foram algumas horas do ME2 e alguns vídeos do 3, fora reviews em sites especializados), e alguns dos detratores estão argumentando não com base na homofobia, mas no canon, dizendo que iria feri-lo, que causaria inconsistências e tudo mais. Certo. Não pode muito bem um personagem ter estado no armário durante toda a trama? E, pelo que andei lendo, dentro da série há diversas inconsistências no que tange a própria construção dos personagens. Por que encher o saco justamente dessa possível inconsistência que geraria?

Ah, outra coisa: uma história pode ser importante p/ enriquecer uma experiência, sim. Mas isto aqui é um vídeo-game. E, sendo um vídeo-game, o gameplay atropela história a qualquer momento, em qualquer lugar. Se o gameplay é bem construído, imersivo e preciso, ele será divertido. Portanto, vale a pena jogar. E com algumas horas de Mass Effect 2 posso afirmar com categoria de que o gameplay é completamente satisfatório. Quantas vezes não jogamos jogos que possui um gameplay muito bem trabalhado cujos personagens são chatos (Tidus, Vanille, estou olhado pra vocês) ou a história era tão melodramática que te fazia perder os dentes e morrer de diabetes de tanto açúcar que havia na história (Final Fantasy XIII, sua vez)? E digam-me se vocês não se divertiram com esses jogos. Mass Effect é um jogo divertido por si só. Mesmo sem história, romances. Só com o jogo. Se as pessoas querem deixar de jogar algo simplesmente porque no meio de tantas coisas boas há UMA que ele não aprecie e que, ainda por cima, pode ser ignorada, eu não te respeito como um gamer. E, sendo essa uma coisa a questão da homossexualidade, não te respeito como pessoa.



Legenda:
¹: Role-Playing Game. Basicamente, você tem uma interação muito maior com os personagens ao seu redor do que nos outros estilos de jogos, podendo interferir com o andamento da trama. Ou você possui liberdade de mundo. Ou ambos.

²: Sites renomados sobre games.

³: First-Person Shooter. Game em que o jogador dá tiros.