Sobre o blog

Coquetel. Molotov?


Qual o nome do(s) soropositivo(s) que você conhece? Não, você conhece algum soropositivo. Conhece sim, porém, você não sabe que essa pessoa tem o vírus da AIDS em seu corpo. Agora responda para si mesmo como você agiria com essa pessoa se você soubesse que ela tem HIV, o que você pensaria dela ou de si mesmo? Quais as chances dessa informação não fazer nenhuma diferença na forma que você pensa sobre essa pessoa? Pense agora na resposta da maioria das pessoas a essas últimas perguntas, lembre-se que elas responderiam apenas para elas mesmas, imagine o que elas pensariam e como agiriam se soubesse que alguém é soropositivo. Entendeu porque você acha que não conhece nenhum soropositivo?

Engraçado que quando há um preconceito até as coisas boas viram algo que contribuem, mesmo que sem intenção, com a manutenção dele. Nesse caso falo do coquetel de combate à AIDS. O Brasil é pioneiro na distribuição gratuita do coquetel, e isso é muito bom. O que não é nada bom é o fato de nos fiarmos nele e mantermos comportamentos de risco indiscriminadamente. O coquetel NÃO CURA A AIDS. O coquetel não é aplicado a todos os casos. O coquetel tem efeitos colaterais.

"Dentre os efeitos colaterais do coquetel, podemos citar a lipodistrofia, isto é, a redistribuição da gordura pelo corpo. Ela diminui muito no rosto, que fica encovado, nos membros superiores, inferiores e nas nádegas, deixa as veias muito visíveis e provoca acúmulo de tecido adiposo no abdômen.
Além de tonturas, diarréia e enjoos, a toxicidade dos remédios pode provocar danos para o fígado, para os rins, assim como acentuar o processo de aterosclerose e aumentar o risco de doenças coronarianas."
Fonte: http://drauziovarella.com.br/doencas-e-sintomas/aids/

Nem todo mundo sofre dos efeitos colaterais do uso do coquetel, mas quase todo mundo sofre o preconceito. Um episódio do programa Sem Censura me inspirou a fazer esse post, e depois que vi o texto da Muni sobre doação de sangue resolvi escrever logo, pois vejo muita ilusão por aí. O coquetel combate os sintomas da AIDS, mas tem ajudado as pessoas a se prenderem num casulo - tanto quem toma, quanto quem não toma.

Lucinha Araújo, presidente da Sociedade Viva Cazuza, estava comentando no progama que depois da distribuição gratuita do coquetel os sintomas da AIDS sumiram do foco da mídia. Na década de 80 a AIDS chamava atenção pelos sintomas horríveis, hoje não tem mais isso. E o que deveria ser apenas bom, uma ajuda para os soropositivos, virou uma forma de também se esconder do preconceito, pois sem os sintomas não se sabe da doença e não se sofre o preconceito de antes. Porém, isso é apenas uma peneira sob o Sol, pois o preconceito ainda existe, só que é menos sofrido por essas pessoas.

Outro dado alarmante é que nos depoimentos que o pessoal da Sociedade ouve é que os jovens estão demonstrando descaso no uso da camisinha, principalmente o jovem que vai para balada no fim de semana e consome drogas, dentre elas as principais são o alcool e o Êxtase. Muitos jovens consomem quatro comprimidos de Êxtase por fim de semana, atentando que consumir dois é pouco. Para esses jovens a camisinha simplesmente não existe. E como existiria? Você está chapadão, mas doido que a tia do Bátima, como vai lembrar de camisinha?

A juventude que se preza por ser mente aberta está ajudando os números da AIDS aumentarem. Os dados do site do governo disponibilizados são até 2008, mas sabemos que - a - coisa - piorou. E isso me deixa triste. Triste demais. Fico triste tanto pela doença, que mesmo que haja um coquetel que combata, ainda não tem cura; e triste pelo preconceito, que também não te cura, apenas combate.

Eu conheço um soropositivo, sei seu nome, sei quem é sua mãe, sei sobre sua família. Sei também que além da família dele, somente a minha família sabe de sua doença. Ele mora na periferia de Salvador, no bairro onde fui criada, e eles temem o preconceito se as pessoas souberem que ele tem o vírus HIV no corpo. Ele não é gay, ele trabalhava (agora depois do agravamento da doença se aposentou), é um bom filho, mas bebe muito. A mãe dele desconfia que ele contraiu o vírus num momento de bebedeira, o que é bastante provável. Ele é popular no bairro que mora, conhece muita gente lá e na cidade toda e ninguém sabe que ele é soropositivo. Olhando para ele, mesmo andando de moletas, ninguém imagina que o que provocou aquilo foi a AIDS. Não quero nem pensar no que ele passaria se as pessoas soubessem.

Não importa a forma em que se contrai a doença - sabemos que boa parte das contaminações são de mulheres hétero casadas e monogâmicas, o que importa é que há um meio eficaz de prevenção, e não está sendo utilizado. Se você se contaminar, o coquetel não vai te curar, ele PODE te dar mais qualidade de vida, porém depende do caso. Li que na Europa foi constatado que com o uso do coquetel uma pessoa pode viver até os 63 anos. A média de vida lá é de 80 anos, ou seja, mesmo com o coquetel a AIDS subtrai 17 anos de sua vida. Isso lá, que a qualidade de vida é bem maior que aqui.

Somente uma coisa é 100% certa quando o assunto é AIDS: ela ainda mata.

E isso não é motivo para se ter preconceito contra os soropositivos.

(Resolvi acrescentar a última frase, ~só para frisar~.)