Sobre o blog

A Cor Púrpura e o feminismo - não necessariamente nessa ordem



Hoje eu fui me inscrever em um curso de dança. Havia duas filas: uma para as mulheres e uma para os homens, porque, como é dança de salão, precisa se formar pares - heteronormativos, diga-se de passagem. Filas assim sempre me deixam tensa, porque é muita gente junta e falando ao mesmo tempo, então tentei ficar lendo um livro no celular enquanto esperava. Mas é impossível se desligar totalmente e no meio das dezenas de conversas paralelas, ouvi uma frase solta de uma moça que estava na minha frente. 

“...mas é que esse negócio de machismo tá na moda agora, né.” 

Já tinha uns dias que eu estava me perguntando como começar esse post e esse pequeno acontecimento de hoje veio a calhar. Esse comentário é muito comum, junto com o clássico: 

“...mas vocês [mulheres] já têm tantos privilégios!” 

E suas variações. 

Eu imagino que uma das coisas – talvez a principal – que motive o comentário da moça na fila seja a ideia comum de que o preconceito, a discriminação, o ódio só existem nas situações extremas (como foi muito bem explicado neste post do Feminerds). Fomos acostumados a pensar assim, e por isso tantas pessoas têm dificuldade de entender o que há de tão inerentemente errado com algumas coisas que nós vemos todos os dias. Essa pessoa pode ver uma notícia sobre um crime de ódio e ficar chocada, mas vê todos os dias, ao seu redor, exemplos sutis de como a nossa sociedade foi construída em cima das sementinhas do que um dia se tornam esses atos extremos, achando tudo perfeitamente normal. 

Há mais ou menos um ano eu descobri o que era o feminismo. Já conhecia o termo antes, mas, assim como muita gente, ainda só conseguia associá-lo a queima de sutiãs e ao oposto do machismo. Esse último, por sinal, é o que faz muita gente torcer o nariz sem antes dar nem uma chancezinha a uma explicação de um parágrafo. 

Acontece que feminismo não é o oposto do machismo, pois o movimento não busca a supremacia feminina. Aliás, é bem diferente disso: o feminismo luta pela igualdade. O que se chama hoje em dia de feminismo pós-moderno tem a sua atenção voltada para as questões do racismo, da homofobia, de papéis de gênero, entre outras coisas. Num belo dia de janeiro do ano passado eu entendi isso, e meus olhos se abriram. 

Chegamos então ao segundo comentário que eu citei lá no começo do post. 

Quando eu digo que sou feminista, ou comento alguma coisa que completo com “...por causa do patriarcado”, a pessoa com quem eu estou falando – geralmente homem – costuma me responder com aquele comentário de que, afinal, nós já temos muitos direitos. Pra ser justa, muitas vezes é um comentário até quase inocente. Exemplo: meu tio uma vez comentou como era legal que a sociedade tenha evoluído tanto e que as mulheres estejam alcançando novos espaços e tudo o mais. Veja você que o que ele disse não é uma mentira; nós conquistamos muitas coisas com o tempo, mas obviamente ainda há muita coisa a fazer e a questão fundamental talvez não seja somente essa. Eu me pergunto: por que nós tivemos que conquistar esses direitos? Por que existem direitos inerentes apenas a determinadas classes e outras devem lutar tanto por eles? 

Esse meu tio é homem, branco e heterossexual. Em outras palavras, ele faz parte da classe dominante e tem privilégios automáticos na sociedade por ter essas três características. Como eu comentei uma vez em outro post, nós não fomos criados – não só pelos nossos pais, mas pelo meio em que vivemos como um todo – para questionar o que foge do padrão, mas sim para simplesmente rejeitá-lo. Esse meu tio, que está perfeitamente dentro dos padrões, não consegue ver onde está exatamente o problema; assim como eu, por exemplo, mesmo sendo contra o racismo talvez jamais vá conseguir identifica-lo sempre sem que alguém às vezes precise me apontar, pelo simples fato de ser branca e não conseguir ver tudo. 

Lembro de desde pequena perguntar pra minha mãe por que o meu irmão e o meu pai podiam ficar assistindo televisão e deixar os pratos sujos na pia pra ela lavar. A resposta sempre foi a mesma: eles são homens, não precisam fazer essas coisas. Eles fazem o serviço pesado, porque isso não é coisa de mulher. Você devia aprender a cozinhar, senão como é que vai casar? Entre outras coisas que ouvimos todos os dias, seja dentro ou fora de casa, e nem sempre questionamos porque, ora, é tão normal! Seria um exagero, seria paranoico procurar problema em coisas tão banais, não é mesmo? 

Não. 

Vou dar um exemplo muito simples do machismo, que eu não conseguia enxergar até alguém colocar na minha frente e explicar, e então pareceu simplesmente óbvio demais pra que eu nunca tivesse visto: quando é que você ofende a masculinidade de um homem? Quando atribui a ele um comportamento ou característica considerada feminina. É considerado um comportamento feminino sentir atração por homens, ser delicado, ser mais frágil, gostar de rosa, entre outras coisas. É desse jeito que o machismo também atinge os homens: limitando-os ao que seja o mais afastado possível do comportamento feminino, porque isso os diminui aos olhos dos outros. Como você ofende a feminilidade de uma mulher? Dizendo que ela é seca, que não pode ter filhos, que é feia, que não consegue arranjar um homem. Porque ter filhos, arranjar homem e ser bonita, entre outras coisas, são os papéis atribuídos às mulheres para os homens. São serviços que devemos a eles. Isso não lhe parece errado? 

Existe uma série chamada À Sete Palmos (Six Feet Under) que tem uma personagem chamada Ruth. Em um episódio, a Ruth comenta que é feminista. A filha dela ri e não acredita, mas a Ruth explica: o fato de ela ter se casado, tido filhos e ser dona de casa não a impede de ser feminista. Porque feminismo não é você repudiar tudo isso e fazer todo o contrário; ser feminista é, basicamente, você poder escolher o que quer ser por você mesma, e não por causa do que um homem ou do que uma sociedade machista espera de você. Eu posso escolher nunca trabalhar fora e ter filhos, posso escolher não tê-los e dedicar minha vida à minha profissão, posso trabalhar e ter filhos e me casar e sabe qual é o ponto em comum entre tudo isso? Fui eu que escolhi, porque a vida é minha. Ninguém além de mim deve decidir sobre ela. 

Celie (Whoopi Goldberg), em A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985)

Por fim, eu indico pra vocês uma maneira de entender o feminismo sem que a palavra apareça na frente dos seus olhos em nenhum momento: o livro A Cor Púrpura. Talvez você já tenha ouvido falar dele por causa do filme, lançado em 1985 e dirigido pelo Steven Spielberg. Foi indicado a onze Oscars (inclusive Melhor Filme e Melhor Atriz) e lançou a Whoopi Goldberg nas telas. Mas meu foco aqui é o livro, que é de 1982 e foi escrito pela autora feminista Alice Walker. 

O livro é basicamente formado por cartas, escritas na maioria pela protagonista, Celie. Ela é negra, mulher, vive numa área rural dos Estados Unidos do começo do século XX, não tem direito a voz nenhuma e é constantemente maltratada e humilhada. Celie é estuprada pelo pai e tem dois filhos, logo tirados dela por ele, e se torna estéril. É forçada a se a casar com um homem que também a maltrata (e que ela chama de Sinhô – Mister no original – pra você ter uma ideia da situação), tem que cuidar da casa, dos filhos dele, e ainda é separada da irmã, Nettie. 

Celie é uma personagem que reúne tantos problemas da sociedade que não poderia ser nada mais do que humana. Ela escreve cartas para Deus, com a sua gramática tortuosa de quem não pôde estudar muito, porque não tem mais ninguém que possa ouvi-la, e passa muito tempo da sua vida sem saber que pode lutar, levantar a cabeça e falar. 

O crescimento da Celie como pessoa – porque acho até meio injusto dizer “como personagem” – é lento e vai acontecendo durante todo o livro. Aos poucos, ela vai conhecendo outras mulheres, se apaixona por uma - a cantora Docí Avery (Shug no original, um trocadilho com sugar) -, e vai percebendo o que acontece ao seu redor. Ela começa a entender a violência que sofreu a vida toda, a literalmente “levantar a cabeça”, até finalmente conseguir falar. 

Porque acima de qualquer outra coisa, é isso que qualquer luta significa: falar.
Você falou pro Harpo bater em mim, ela falou.
Não, eu num falei, eu disse.
Num mente, ela falou.
Eu num quis dizer isso, eu falei.
Então por que você disse? ela perguntou.
Ela tava de pé olhando pra mim bem no olho. Ela parecia cansada e a buchecha cheia de ar.
Eu falei porque sou idiota, eu disse. Eu falei porque tava com inveja de você. Eu falei porque você faz o queu num dô conta de fazer.
O que que eu faço? ela falou.
Briga. Eu falei.
Ela ficou lá parada um tempão, com se o queu tinha dito tivesse tirado o ar da boca dela. Ela tava furiosa, antes. Triste, agora.
Ela falou, Toda minha vida eu tive que brigar. Eu tive que brigar com meu pai. Tive que brigar com meus irmão. Tive que brigar com meus primo e meus tio. Uma criança mulher num tá sigura numa família de homem. Mas eu nunca pensei que ia ter que brigar na minha própria família. Ela respirou fundo. Eu gosto do Harpo, ela falou. Deus sabe como eu gosto. Mas eu mataria ele antes de deixar ele me bater. Agora, se você quer um inteado morto, então é só você continuar dando pra ele o conselho que você deu. (...)
- A Cor Púrpura, página 52-53