Antes de qualquer coisa, me deixa contar duas situações pra vocês:
1. Há alguns meses, um amigo meu me contou sobre um dia em que ele tinha ido doar sangue. Essa semana eu pedi pra ele me contar de novo, e esse é o relato:
Eles fazem um interrogatório. São muitas perguntas pra saber de onde a pessoa é, o que faz, se usa camisinha, se tem perdido peso, se se alimenta bem... daí perguntam se a pessoa já teve relação sexual com alguém do mesmo sexo. Quando me fez essa última pergunta, a mulher teve a infelicidade de acrescentar: "assim, né, porque muitas vezes é uma coisa que acontece uma vez na vida, na adolescência, quando a pessoa ainda é muito confusa" (eu fiquei chocado nessa hora, claro). Já tinha me preparado psicologicamente pra não me impor e tudo, mas depois dessa tenha dó. Eu disse (com indignação): "Se a pessoa já tiver tido uma experiência homossexual, o que isso implica?". Ela enrolou um pouco, fechou minha ficha e disse que talvez eu não estivesse preparado pra doar sangue (não, eu estava preparado, sim). Eu fiquei revoltado e contra-argumentei, ela aparentou ter ficado um pouco sem saber o que responder, pegou uma cartilha do Ministério da Saúde e disse cinicamente: "São recomendações do MS! Estou apenas seguindo recomendações do MS!"
Continuamos "dialogando" até que eu fui "permitido" a me voluntariar a doar sangue. Ela levou minha ficha para a mulher da sala ao lado que retira o sangue, enquanto isso fui lavar o braço. Elas ficaram lá dentro por um momento e depois fui chamado. Lá dentro a gente recebe um papel que é tipo um "voto confessional", coisa assim. No papel tem dizendo algumas coisas, como se você fez sexo homossexual, se usou substâncias psicoativas (drogas), etc, deve marcar lá num local indicado que seu sangue não está apto para a doação. A moça da sala de recolher o sangue se posicionou na minha frente e disse: "Se você tiver feito alguma dessas coisas, você deve marcar que seu sangue não pode ir para a doação". Tinha um casal na maca ao lado, a mulher tava doando sangue e o marido/namorado dela tava esperando-a, segurando sua mão. Eu pensei: "Isso é tão injusto!", porque se fosse um casal gay não seria a mesma coisa. Doei o sangue e então precisava responder o papel e colocar numa caixinha lá. Marquei que não estava apto porque na noite anterior tinha usado maconha¹.
2. Um outro amigo meu foi doar sangue, há umas duas semanas. Durante a triagem, perguntaram se ele já tinha feito sexo com homens e/ou prostitutas ; ele disse que não. Depois disso, perguntaram então se ele tinha feito sexo sem camisinha há menos de três meses; ele disse que não. Depois de outras perguntas padrão, doou o sangue normalmente.
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Até mais ou menos uns dois anos atrás, eu não sabia como funcionava a triagem dos doadores de sangue. Só fui atrás disso quando vi uma notícia sobre uma mulher que não pôde doar para o pai por ser lésbica². Se isso tivesse acontecido por causa de preconceito de um médico/enfermeiro específico, por exemplo, eu teria ficado bem menos chocada do que fiquei na época quando vi que a triagem realmente barra homossexuais.
O fato é que existem muitas restrições, necessárias para que haja o menor risco possível de contaminação pra pessoa que vai receber o sangue. Até aí está tudo bem. O problema acontece quando os limites se confundem num procedimento que, mesmo já tendo sido revisado inúmeras vezes, continua barrando pessoas aptas para a doação.
Se você for a um hemocentro doar sangue, vai ter que responder um questionário. O objetivo é verificar se você tem comportamento de risco – já não se fala (ou melhor, não se deve falar, mas na prática não é bem assim) mais em grupos de risco. Em certa altura, te perguntam sobre a sua vida sexual. O protocolo padrão diz que, se você fez sexo com mais de um parceiro sexual/fez sexo sem camisinha/é homem e fez sexo com um homem nos últimos doze meses/fez sexo com prostitutas (ou garotos de programa), você não está apto para a doação.
Perceberam a redundância?
O que mais caracteriza o comportamento de risco para DSTs é não usar camisinha. A partir do momento em que você declara não ter usado, você não está mais apto para a doação. Percebam que não importa com quem você fez. Mas mesmo assim, na prática, pipocam o tempo todo notícias sobre pessoas que foram barradas por mau uso desse protocolo. O caso do meu primeiro amigo, por exemplo, que quase foi barrado única e exclusivamente por causa da sua sexualidade é um exemplo disso.
Daí você me pergunta: mas e se eu fiz sexo sem camisinha e levar um exame dizendo que não tenho AIDS, nem hepatite C, nem nada? Dependendo de quanto tempo faz, não adianta também. O tipo de exame para AIDS que é feito hoje no Brasil só detecta o vírus com certeza até três meses depois da infecção (já ouvi falar de seis, mas de qualquer forma o protocolo fica com doze por garantia), e há quem tenha carga viral indetectável. Mas até aqui continua não importando o sexo ou o comportamento da pessoa com quem você teve relação sem camisinha, certo? Exatamente.
A triagem para a doação de sangue nem sempre foi assim, no entanto. As perguntas sobre a sexualidade do doador foram incluídas no questionário no começo dos anos oitenta, nos EUA. Com o tempo, outros países foram adotando o mesmo sistema e de vez em quando ele é revisado. Hoje em dia o Ministério da Saúde afirma que não existe preconceito no protocolo oficial, mas como estamos vendo, não é bem assim que anda funcionando.
Vocês devem estar imaginando que esse protocolo começou por causa da AIDS, e estão certos. Os primeiros casos em humanos foram descobertos bem no início dos anos oitenta, e o exame não existia até 1985. Hoje em dia, mesmo que se ignore um bocado as outras DSTs, a população teme a AIDS e, no caso de sexo entre homem e mulher, a gravidez, e usa camisinha. Mas trinta anos atrás as pessoas ainda não sabiam do fantasma de uma doença³ sem cura para incentivar o sexo seguro.
Daí você me pergunta: mas o que isso que tem a ver com a sexualidade? E eu explico: a opressão às pessoas LGBT+ existe e existiu de modos diferentes a cada época. O ponto em comum é que, toda vez que uma minoria começa a tentar ser ouvida, a abrir espaço para si, acontece uma reação oposta muito forte. Entre os anos sessenta e oitenta, a despeito da liberação sexual, a repressão dos LGBT+ era muito forte e, sendo um grupo marginalizado, o que hoje chamamos de “comportamento de risco” – relativo tanto a sexo quanto a drogas - aumentava. Além disso, o risco de transmissão do HIV pelo sexo anal (desprotegido) de fato é maior. O resultado disso foi que na época os maiores afetados pela AIDS eram realmente os homens homossexuais.
(Harvey Milk na Parada pela Liberdade Gay de 1978)
O vírus HIV foi imediatamente relacionado a eles, e a AIDS (que bem no começo chegou a ser denominada GRID – gay-related immuny deficience) começou a ser chamada de câncer gay, castigo divino, maldita, entre outras coisas. Até hoje, o estigma permanece e muita e muita gente ainda pensa quando vê um homem gay que esteja muito magro e/ou aparentando estar doente que ele só pode ter AIDS.
(eu estava conversando com um amigo uma vez e a gente notou – se não me engano porque já tínhamos visto a comparação em algum lugar – que a AIDS de certa forma se tornou o mal do fim do século XX assim como a tuberculose era no fim do século XIX)
Meu ponto é: eu acho certíssimo que sejam feitas todas as precauções possíveis para que o sangue doado seja seguro, desde que se preocupem também com o que é justo. Não faz sentido que uma estatística de trinta anos atrás ainda seja usada como base para definir “comportamento de risco”. Ainda há furos no protocolo e na orientação dos profissionais que fazem os questionários, e é isso que ainda não foi revisto o suficiente.
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¹maconha: em junho de 2011 a restrição para drogas foi um pouco modificada; agora, no caso específico de ter usado maconha, é permitido doar sangue após doze horas.
²lésbica: o protocolo do Ministério diz que não há qualquer restrição para mulheres lésbicas. O que só torna o caso da moça barrada mais incoerente ainda.
³doença: na verdade, a AIDS não é uma doença, é uma síndrome. Ou seja, é um conjunto de sintomas - no caso, a deficiência do sistema imunológico do corpo que gera condições para doenças oportunistas aparecerem.
E esse assunto é tão extenso que muito provavelmente ainda vai aparecer por aqui.
E esse assunto é tão extenso que muito provavelmente ainda vai aparecer por aqui.

