A entrada do playground
Quero contar uma história:
Não bastava ter nascido mulher, tinha que ser pobre e gorda com cabelo crespo. Desde a mais tenra infância fora ensinada que não podia brincar na rua, mas seu irmão podia, porque ele era homem. Não podia namorar nenhum menino antes dos quinze anos, mas os descobrimentos das aventuras amorosas de seu irmão aos treze anos com uma menina mais velha eram recebidos por seus pais com risadinhas condescendentes. Desde o primeiro ano na escola fora apelidada carinhosamente de baleia. Os meninos chamavam-na de baleia somente para irritar. Ela corria atrás deles para bater, mas nunca batia forte de verdade, porque tinha pena. Se achava uma boba.
Isso aconteceu até chegar na quarta série. As coisas começaram a mudar quando na terceira série (na época se chamava assim o quarto ano), fora eleita Rainha Primavera da turma. Ela achara que era uma brincadeira, que tinham votado nela para ela passar vergonha, mas como era um evento da escola ela teve que ir. Nesse meio tempo descobriu que a menina para quem ela votara para ser Rainha Primavera tinha votado nela, e não soube mais o que pensar.
No dia do desfile, que tinha que ser feito de roupa de banho, um garotinho segurava as mãos dos amiguinhos para eles não baterem palmas para essa garota, e quando uma garotinha loira e magra passava ele batia tanta palma que parecia que ia deslocar os pulsos. A garotinha loira tinha dentes tortos e ela ficava triste dessa garotinha ser aplaudida por esse menino (que era o mais bonito da escola) e ela não. Engraçado que esse menino era o mesmo que gostava dela secretamente. E foi ele quem lhe deu seu primeiro beijo.
Então descobriu que as pessoas nem sempre são coerentes com seus sentimentos. Descobriu também que podia não ser magra nem ser a menina mais bonita da escola, mas sempre teria alguém que gostaria dela, mesmo que essa pessoa nunca dissesse nada. Foi aí que ela passou a não se preocupar com o fato de chamarem-na de baleia, assumiu que era gorda para si mesma, se aceitou, e decidiu que por mais que a maioria das pessoas quisesse usar isso contra ela, ela não se incomodaria, porque para umas pessoas ela seria feia, mas para outras seria bonita. Sim, ela foi uma criança precoce.
A partir daí nunca mais sofreu bullying. Se era gorda e sabia que era, dizia que era mesmo e pouco se importava que chamassem-na de gorda. Quais os motivos que os garotos teriam para zoar por ela ser gorda? É assim que funciona a mente dessas pessoas. Algumas delas querem maltratar alguém, e quando encontram um alvo potencial tentam de toda forma atingir essa pessoa, mas quando percebem que essa pessoa não se importa desistem e partem para outra.
Porém, ela ainda se incomodava com o fato de sentir pena das pessoas. Ela não conseguia bater com força, ela não sentia prazer na dor dos outros, não achava engraçado outras pessoas passando vergonha. Isso a irritou até ela chegar à idade adulta quando descobriu que essa pena na verdade era piedade que nascia de sua boa índole, e como ela viu que boa índole anda desvalorizada resolveu aceitar essa característica como parte de si também. Percebeu que ser bom não é fraqueza, é força, e o mundo está precisando de gente boa demais.
Ela aprendeu as táticas de burlar bullying cedo e sozinha, superou-as da forma que as ruas ditam, o modo cão do mundo cão, e conseguiu ser respeitada. Ela passou a ser uma das garotas mais populares da turma, sempre se destacava, as pessoas brigavam para tê-la em seus grupos de trabalhos e sempre tinha amigos.
Essa não é uma história de uma pessoa que sofria bullying por ser gorda, saiu de férias e voltou magra. Essa é a história de alguém que não mudou sua aparência e passou por cima.
Essa é a minha história.
Sei que a maioria das pessoas não são precoces como eu, a maioria das pessoas que sofrem não tem auto-confiança, não tem auto-estima, não tem uma família compreensiva. Sei que não é fácil. Mas é possível.
Queremos ter amigos e achamos que a melhor forma de tê-los é agradando as pessoas. Sofremos porque percebemos que não agradamos as pessoas, porque elas nos fazem acreditar que não somos bons o suficiente para sermos seus amigos. Isso é MENTIRA. Se te chamam de palavras ofensivas tenha certeza absoluta que não é porque você mereça ouvi-las. Você é alguém normal, só que sensível, e elas se aproveitam disso. Sim, você, gordinho, você, nerd, você, gay, vocês, todos vocês são normais, pois o normal é ser diferente. Não tente se encaixar em um padrão que não é seguido nem por quem o criou.
Você quer ter um amigo? Apresento-te você mesmo. Eis aí uma pessoa legal para quem você deve ser sempre gentil. Se as pessoas não são gentis com você, está mais que na hora de alguém ser, não acha? E ninguém melhor que você mesmo. Se preocupe menos com amigos e se preocupe mais com você, afinal de contas você é a única pessoa de quem você nunca poderá fugir.
Tentam te fazer acreditar que você é minoria, que você é insignificante, mas ei! Você não é minoria, nós não somos minoria. Minoria é a mãe!
Imagem de: http://thejader.deviantart.com/
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A entrada do playground
2012-01-03T23:11:00-02:00
Rebeca
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