Passei todo o ensino fundamental sendo lembrada de como era feia. Às vezes alguma pessoa dizia diretamente, às vezes diziam que nenhum menino nunca ia querer me beijar, às vezes eu só sabia. Nunca havia realmente parado pra pensar se era bonita ou não antes disso. Não fazia tanta diferença até o momento em que alguém me fez perceber que devia haver algo de errado. Eu fingia que não me importava, às vezes até brincava com isso. Minha função naquela pequena sociedade do colégio era ficar observando, afastada, enquanto as outras meninas – ora mais magras, ora com o cabelo liso, ora com o nariz menor ou menos pelos e dentes mais retos – começavam a se aproximar dos meninos, a namorar, a falar de roupas e maquiagem.
Eu era amiga de alguns meninos. Eu tentei gostar mais de maquiagem, de enfeites no cabelo, de roupas diferentes, e nada disso funcionou. Eu tentei ler as revistas que elas liam, eu passei cola pra quem pedia, eu ajudei nos trabalhos. Falhei em tudo e, até a sétima série, eu tinha pouquíssimas amigas que considerava de verdade, uma em especial, e eu só andava com as outras por causa dessa ligação. Elas me toleravam enquanto eu ficava imaginando o que mais podia fazer pra ser bonita, pra ser legal.
E então, como costuma mesmo acontecer entre os doze e treze anos, eu comecei a me interessar pelas pessoas no sentido romântico da coisa. A essa altura as meninas com quem eu andava já tinham suas crushes e namoradinhos e eu, em algum momento que até hoje não sei definir como ou quando foi, percebi que gostava de meninas. Era de se esperar que eu ficasse confusa com isso, mas essa parte foi o de menos. Em pouco tempo, naquele mesmo ano, muitas coisas aconteceram de uma vez só: cheguei à conclusão de que era lésbica, contei pra minha melhor amiga que estava gostando dela, algumas pessoas ficaram sabendo, e de repente pararam de falar comigo. Sim, até ela.
Durante esses meses, que até hoje considero como alguns dos piores da minha vida, eu aprendi que é muito difícil entender as pessoas e descobri o que é viver o preconceito na pele – mais um deles. Fiz alguns progressos, mas a verdade é que até hoje não entendo. Comecei a sentar do outro lado da sala, conheci outras pessoas, fiz amigos que eu podia dizer que realmente me conheciam e não precisei mais ficar tentando com tanta força ser uma pessoa que eu não era. Sim, essa é a história clássica, mas não é o fim dela.
Sabem quando foi que eu realmente fiquei confusa com a minha sexualidade? Quando percebi que gostava de meninos mesmo gostando de meninas. Eu, a essa altura com uns catorze anos, ainda pensava que só existiam dois lados; ou você era hetero, ou você era homo. Eu definitivamente não era hetero, então o que mais poderia ser?
Com o tempo tive que ir aprendendo e descobrindo as coisas sozinha. Vivemos numa sociedade que não nos ensina a ir atrás da informação sobre o que é diferente do padrão. Sozinha, procurando em livros e na internet, eu fui aprendendo os termos e o que acontece. Descobri que sentir atração por homens e mulheres era chamado de bissexualidade. Descobri que homossexualidade é um termo mais correto que homossexualismo. Descobri, aliás, que até os anos setenta a homossexualidade era considerada um transtorno psiquiátrico. Descobri o movimento LGBT+, descobri as outras letras desse mesmo movimento, descobri o feminismo, descobri a teoria da sexualidade fluida, descobri pessoas novas, amigos, ativistas, livros, filmes e, em suma, uma vida toda se abria na minha frente.
Descobri que a bissexualidade não tem muita visibilidade. Quantos personagens bi você conhece na ficção? Difícil, não é? Quantas vezes você viu a bissexualidade ser retratada como algo mais que apenas curiosidade ou uma “tentativa de aumentar as chances”? Sim, é difícil. Descobri que existe muito preconceito dentro da própria comunidade. Eu já ouvi muita coisa e, a bem da verdade, nunca vou deixar de ouvir. Ouvi que bissexualidade não existe, que bissexuais traem mais, que não existem homens bissexuais em relacionamentos hetero, ouvi de tudo.
Desde o primeiro momento em que percebi gostar de meninas até hoje já se passaram sete anos. Durante esse tempo, muitas vezes eu pensei que não estava fazendo o suficiente, e a verdade é que, não, nunca é suficiente. Eu acho que o maior mal da sociedade é um combo: não querer ouvir + falta de informação. A primeira parte é de responsabilidade de quem ouve, nisso eu não posso e nem consigo interferir sempre, mas a segunda a gente sempre pode fazer. Nesses últimos sete anos eu conversei com muita gente, escrevi muita coisa, expliquei até a exaustão termos e conceitos e, quando consegui passar um pouquinho por cima do medo, consegui até mesmo expor a minha opinião dentro de casa. O processo é muito lento e nós somos humanos, temos uma existência limitada; por isso temos pressa e por isso, tantas e tantas vezes, eu cansei e me calei, porque achei que não ia adiantar mais. Mas sabem de uma coisa? Adianta. Mesmo que a gente não veja imediatamente, está acontecendo, as coisas estão mudando. E eu estou aqui pra ajudar.
