Sobre o blog

Tirando diamantes do útero



"If I gave you sanity
For the whole of humanity
And ad all the solutions for the pain and pollution
No matter where I live
Despite the things I give
You'll always be this way"

H
á alguns anos vi numa revista feminina de grande circulação a seguinte manchete: Porque o mundo odeia os gordos. Fiquei interessada e fui ler. O resultado foi que quando acabei de ler eu estava me sentindo deprimida. Não era deprimida comigo mesma, mas decepcionada com o mundo. Na matéria não se dizia porque odiavam os gordos, só mostrava as formas de ódio, e isso me deixou estarrecida. Li coisas que nunca pensei que aconteciam, me surpreendendo cada vez mais com a força do ódio. Passei dias pensando naquela matéria, fiquei triste, mas acabei superando.


Dentre uma série de barbaridades na matéria o que mais me marcou foram as partes que diziam que a maioria das mulheres preferiam sofrer uma perda salarial significativa que aumentar dez quilos, e que as pessoas se incomodavam quando viam um obeso comer hambúrguer com batata frita.

A primeira eu entendo, acho idiota e fútil, mas entendo. É melhor seu nome ir para o SPC por não ter pago uma conta, perder cartões de crédito, etc, que engordar, afinal há a crença de que uma vez engordando nunca será possível emagrecer novamente, não é? A diferença entre engordar e se encher de dívidas é que das dívidas só você (e os credores) que sabe, mas o aumento de peso todo mundo vê. Você poderia falar que é por causa da saúde, mas nós sabemos que não é. Ou você acha que aquele refrigerante zero açúcar que você bebe te faz bem?

Deixando esses questionamentos dos hábitos saudáveis de lado eu me peguei perguntando por que (céus, POR QUE) odeiam os gordos, e cheguei a algumas teorias. A primeira é de que as pessoas tem raiva ao imaginar que o gordo come tudo o quer, não se nega esse prazer que elas (pessoas não gordas) tanto se negam. Teoria questionável, eu percebi, então cheguei à segunda teoria: há a crença de que gordo é preguiçoso, não se exercita, não se movimenta, fica o dia todo na frente da TV/computador, por isso é gordo. Aí eles pensam, ora, se fulano é gordo porque é preguiçoso, ele está errado e não deveria ser assim, afinal eu faço muitos sacrifícios para ser magro, ele deveria fazer também. Então veio a terceira teoria: odeiam os gordos porque fazemos tudo que eles querem fazer, mas não fazem para não serem gordos. O que me fez achar minhas teorias muito egocêntricas e arrogantes, uma vez que o padrão delas é a inveja alheia, e sabemos que não é assim. Os gordos que costumam invejar os magros, não o contrário.

Porém, esse não é o erro das minhas teorias. Vocês perceberam qual o erro delas? O erro é elas EXISTIREM. A gente tenta justificar o ódio, dar uma razão para ele existir para que nós não nos sintamos tão injustiçados, mas sinto te informar: não há justificativa para o ódio. Não há um só motivo além de uma agressão direta que justifique o ódio. Você que é gordo, saiba que te odeiam injustamente sim. E isso é simplesmente ridículo.

Eu não quero exaltar a beleza dos gordos, não por ela não existir, mas por saber que visão de beleza é uma característica pessoal. O que quero tentar mostrar é que você não fez nada para te odiarem, é o modo cão do mundo cão. Você pode até emagrecer, mas as pessoas não ficarão satisfeitas. Quererão que você alcance uma série de alvos padronizados que pouquíssima gente alcança, e quando você não os alcançar eles te odiarão do mesmo jeito. Porque é isso que as pessoas fazem: odeiam umas às outras apontando os defeitos alheios para tirar os seus de foco.

Eu não vou dizer que você tem que se amar do jeito que você é, você tem que se amar. Ponto. A partir desse amor você deve buscar as mudanças que são importantes para você, não para a sociedade.  A sociedade não paga suas contas, a sociedade não é sua amiga, a sociedade não está aí para você contar com ela num momento de necessidade, então pra que tentar agradar uma sociedade que não se importa contigo? Pra que buscar um objetivo que você nunca vai alcançar? As modelos de passarela são magérrimas, algumas pessoas as acham bonitas, outras as acham horrorosas, e a maioria delas chamam-nas de drogadas, bulímicas e/ou anoréxicas.

Sei que muitos de nós queremos emagrecer para chamar a atenção de alguém buscando um relacionamento, pois nos ensinam que mulher gorda não é atraente sexualmente (homem não precisa ser atraente para conseguir alguém, é isso que nos ensinam), e acabamos acreditando. Essa é outra mentira. Um dia eu estava mexendo no laptop de meu marido acessando a internet quando achei um vídeo pornô de gordas. Eram homens magros excitados fazendo sexo com mulheres gordas. Não era com o que chamam de gordinha, aquela moça acima do peso que não querem ofender chamando de gorda, eram mulheres gordas mesmo, com os famosos pneus, seios bem grandes, rostinhos redondos e muita celulite. Existem sites que divulgam só esse tipo de pornô e são muito acessados. Se são acessados é porque existe por aí bastante gente que se excita com gente gorda. Eu já sabia disso mesmo antes de conhecer esse tipo de pornô, mas foi uma descoberta feliz. A pornografia é uma indústria, e se há o produto é porque há quem compre.

O que você deve ter consciência é que gordo é um adjetivo que indica o contrário de magro, e que por mais que a sociedade tente te convencer que ele é sinônimo de feio e doente é mentira. Podem repetir a sua vida toda essas coisas, mas não acredite, é mentira. Não estou fazendo apologia ao sobrepeso dizendo que estar acima do peso é saudável, longe de mim. O que estou tentando dizer é que muita gente que está no peso ideal está longe de ser saudável, e utilizar um ideal de saúde como motivação para propagar o ódio e o preconceito contra quem tem sobrepeso é vergonhoso.

Não se esforce para agradar quem não se esforça pra te agradar. Lembre-se que só há realmente uma pessoa com quem você não pode viver sem, e essa pessoa é você mesmo. Se seus amigos querem que você emagreça para você satisfazer os ideais deles, mude de amigos. Passe um tempo sem amigos, reflita, reveja seus conceitos e preconceitos, faça as pazes consigo mesmo. Se você não fizer as pazes consigo mesmo, meu caro amigo, não será o mundo que fará. Já basta o ódio que o mundo sente por você, não odeie a si mesmo também.



O título do post foi inspirado na música "Hate on me" da Jill Scott, a epígrafe é um trecho da mesma música. Recomendo ouvi-la no último volume (com fones de ouvido).
Na imagem é a cantora Beth Ditto.