Sobre o blog

The truth is you'll be ok anyway



Recentemente, eu tentei me lembrar de quando me tornei feminista e pró-direitos LGBT. Faz cerca de dois anos que comecei a pesquisar sobre o assunto, mas não acho que tenha sido há dois anos atrás que essa mudança de pensamento aconteceu. Eu não sei precisar o momento, mas acredito que tenha sido quando eu percebi que não havia nada de errado comigo, que era o mundo que estava errado. E, pra alguém que passou a maior parte da vida se odiando, isso faz toda a diferença.

Desde a primeira lembrança consciente que tenho, dos três ou quatro anos de idade, sinto que há algo de errado comigo. Com meu corpo, mais especificamente. Só agora vejo o quanto era cruel que eu deixasse de brincar com outras crianças por pensar que assim elas também perceberiam que eu tinha... vindo com defeito. Eu não fazia ideia do que havia de tão errado comigo, e acho que por isso decidi, sem que ninguém me dissesse isso antes, que era porque eu era feio e gordo. Hoje, nas fotos, eu vejo uma criança quase desconhecida pra mim, alguém cuja história me contaram e que eu apenas repito. Uma menina rosada e bonitinha que não sou eu, mas com quem eu sei que não havia nada de errado.

Na escola, eu tentei me enturmar em diversos grupos, mas sempre parecia que eu não era suficiente para as outras pessoas. Conforme fui crescendo, a crença de que o que havia de errado comigo era a aparência aumentou e eu desenvolvi um transtorno alimentar. Mas não importava o quanto eu emagrecesse ou o quanto as pessoas dissessem que eu estava linda, nada melhorava.

Eu comecei a perceber que o problema era estar linda aos treze anos, quando ganhei meu primeiro computador. Era mágico ser, finalmente, apenas uma cabeça, sem corpo, sem que as pessoas me julgassem ao me ver, uma terra onde todo mundo é, na medida do possivel, igual até que se prove o contrário. Nessa época, eu já tinha conhecido os amigos que me acompanhariam até o fim do Ensino Médio. Éramos uma menina, dois meninos e eu; e entendo que essa frase tenha ficado estranha, mas foi assim que passei a nos definir quando percebi que gostava de mulheres. Eu sou bissexual, mas na época a veiculação desse termo era tão pouca que eu achava que a única opção que eu tinha era ser lésbica. Mas essa palavra não parecia certa. Quando contei para eles, disse que gostava de meninas. Por algum tempo, pensei que essa aversão ao termo fosse homofobia internalizada minha, mas não pensei muito no assunto até ficar com um garoto e, quando perguntaram como foi, eu respondi “eu me senti gay”. Naquele dia só demos risada disso, mas algum tempo depois passou a fazer sentido.

Eu tinha treze anos quando descobri o que era a transexualidade. Eu só sabia que existia a feminina, pelo caso da Roberta Close estar na mídia, e não fazia ideia que era possível que uma "menina" se sentisse assim e que pudesse mudar isso. Não lembro o que eu estava procurando na Internet quando encontrei uma página sobre transexualidade masculina e tudo meio que se encaixou. Por muito tempo aquilo ficou na minha cabeça, mas o medo da reação meus pais, não fazer ideia de por onde começar, achar que era difícil no Brasil (e era mesmo) e o medo de me arrepender fizeram com que eu parasse de pensar na transição por um tempo, mas o sentimento permaneceu ali.

Um tempo depois, chuto que já tinha 15 anos, comecei a usar roupas “masculinas”, mas não muito (no máximo, eu passaria por uma lésbica butch). Foi incrível a mudança: eu sempre fui muito tímido e paranóico sobre a opinião alheia, mas mesmo com os comentários horríveis e o aumento do bullying que eu já sofria antes, eu me sentia tão melhor que valia a pena. Lembro de sentir uma espécie de agonia sempre que alguém falava algo sobre meninas e me incluía, mas por mais que eu lembrasse da transição e o assunto surgisse em minha mente com mais frequência do que eu gostaria, acreditava que era só uma lésbica confusa.

Por não seguir muito os estereótipos de gênero, meu grupo de amigos me ajudou muito a me sentir “normal” - eles definitivamente eram cis (não-trans), mas eram diferentes do povo que eu via todo dia na escola: nós nunca nos tratamos como "as meninas do grupo / os meninos do grupo", éramos só nós. Com eles, eu não sentia o fato de ser biologicamente (não gosto desse termo, mas ainda chegaremos lá) mulher tão evidenciado o tempo todo; eu me sentia à vontade pra não ser nem menina nem menino, como era na Internet. Quando nosso grupo se separou, eu senti o baque de perceber que, por mais que entre eles eu me sentisse bem em ser como era (apesar de ainda ser terrivelmente ansioso sobre meu gênero e aparência), entre as outras pessoas era completamente diferente. Me irritava e me entristecia cada vez mais o fato de ser visto como mulher.

Só que eu já estava cansado demais de ter que me policiar e me comportar como as pessoas esperavam que eu me comportasse, então tentei não me importar e comecei a ir pra escola me vestindo “como garoto”. Nunca fui tão zuado. Começaram a espalhar na escola que eu era “hermafrodita” (que é um termo desrespeitoso mesmo para pessoas intersexo) , fingiam que me tratavam como rapaz só para ofender e me xingavam e ameaçavam. Eu comecei a me abrir para a ideia de que era transexual quando percebi que tudo isso ainda era melhor do que ter que me sentir errado como antes. Voltei a pesquisar sobre o assunto e recebi apoio de uma pessoa que hoje é minha melhor amiga, me interessei mais por feminismo e, enfim, aconteceu o que eu disse: percebi que era o mundo que estava errado, não eu. É complicado, ruim e todo dia eu me pergunto "por que eu?", mas eu preciso fazer isso.

Eu ainda tenho sérios problemas de auto-estima, mas consigo me amar. Se não me amo por quem eu sou, me amo pela coragem de tentar ser. Há cinco anos atrás isso parecia impossível. Então, acho que no fim, tudo vai ficar bem. Comigo e com quem quer que esteja lendo.

"Não teria importância se eu estivesse cansado da guerra, Uther, pois Deus escolheu, em sua sabedoria, mandar-me a guerra durante toda a minha vida, e portanto assim será, de acordo com sua vontade." (As Brumas de Avalon)

(a imagem do post é do filme Mary and Max, que recomendo só para os fortes, e o título é da música Chemo Limo, da Regina Spektor)