Sobre o blog

Cavalheirismo - a medida do machismo



"Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
'Cause it's OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
'Cause you think that being a girl is degrading"


Vou contar duas pequenas histórias aqui. A primeira é da diarista que fazia faxina aqui em casa, a Lucia*. Uma senhora de seus quase cinquenta anos, afrodescendente e mãe solteira. A filha única dela, Priscila*, também é mãe solteira, e a Lucia não sabe quem é o pai, porque ela não quis contar. O último namorado de Priscila era um rapaz desempregado. Nas palavras de Lucia, ele era um rapaz bom, não era metido em drogas, o único problema é que não tinha nada para oferecer à Priscila. Esse nada a oferecer que ela fala é financeiramente. Priscila e a filhinha são sustentadas por Lucia que faz plantão na cozinha de uma penintenciária em noites alternadas, além de faxinas durante a semana.

Esse namorado, além de não ter nada a oferecer a Priscila, é ciumento. Então um dia em que Lucia estava no trabalho, ele foi na casa dela bater em Priscila, porque achava que ela estava com outro homem. Foi um escândalo na rua. Lucia só ficou sabendo pelos vizinhos quando voltou do trabalho horas mais tarde. A moça não quis denunciar o ex-namorado (agora já era ex), e como ela já tinha atingido a maioridade Lucia também não podia denunciar em seu  lugar. Lucia ficou revoltada e proibiu o rapaz de entrar na casa dela caso a filha resolvesse voltar a namorar com ele. Ela me falou "Se ele desse alguma coisa a ela, mas não, ele não dá nada a ela, aí vem e bate."

Onde está o erro nessa história? Pergunto melhor, onde NÃO TEM erro nessa história? Ela está errada do começo ao fim. Primeiro com mãe solteira sustentando filha maior de idade e neta, vai piorando com o rapaz batendo na namorada, culminando com a frase "Se ele desse alguma coisa a ela" como se dar algo a Priscila fosse um possível direito adquirido de bater.

Nesse dia eu conversei muito com Lucia. Falei que ele não tinha nunca direito de bater nela, mesmo que ele a sustentasse, mesmo que ela realmente estivesse com outro homem. Ela não é propriedade dele. Meu discurso caiu em ouvidos vazios.

A segunda história foi contada pela minha atual secretária, a Patrícia*. Ela trabalhou para uma mulher casada que mantinha a casa sustentando também ao marido. Ele era obeso mórbido, e tinha a característica peculiar de ser um troglodita miserável. A patroa dizia para Patrícia esconder a comida, senão ele comia tudo, porém, se ele não achasse a comida ele xingava Patrícia de tudo quanto era palavrão e batia na mulher quando ela chegava em casa. Ele já tinha feito várias cirurgias de redução do estômago e sempre voltava ao peso de antes, e isso era uma preocupação para a mulher.

Um certo dia ela falou a Patrícia que não ia mais querer os serviços dela porque iria se separar e não poderia pagá-la. Com certo alívio Patrícia voltou pra casa, pensando que tinha se livrado daquele patrão louco. No dia seguinte a mulher ligou para Patrícia pedindo para ela voltar, pois não ia se separar mais do marido. Aquele homem dizia para quem quisesse ouvir que todo marido batia na mulher, que todo marido tinha que bater na mulher, que essa era a forma certa das coisas. Patrícia pediu desculpas, mas não voltou a trabalhar com aquela família.

Dessa vez nem vou perguntar o que está errado com essa história, pois creio que quem parar para ler esse texto terá um pouco de sensatez.

Lembro que na minha adolescência eu queria ter nascido homem. Sempre me identifiquei mais com os meninos, a maioria de meus amigos de verdade são homens, e eu achava que era porque eu não gostava de mulher. Recentemente descobri que não é isso. Eu gosto de mulher, apenas odeio quando a mulher é machista, e a maioria das mulheres que conheci são machistas. Nós somos ensinadas que somos falsas, que não existe amiga de verdade, que tomamos os namorados umas às outras, que mulher é fofoqueira, que mulher isso, aquilo e aquilo outro. E tudo isso nos dizem que é característica da mulher. Só que há algo pior que nos criarem achando que somos seres perigosos: é nos criarem acreditando na lenda do cavalheirismo.

Uma amiga estava comentando comigo que o auge do cavalheirismo "no ciclo Arturiano foi em Sir Gwain and the Green Knight - cuja ultima lição era de que um homem não era verdadeiramente um cavalheiro ou digno se não respeitasse o fato de que apenas as mulheres podiam decidir sobre suas vidas - E ESSE É UM TEXTO DO SÉCULO XII" (sic). Só que eu não consigo ler algo assim e simplesmente acreditar que era assim. Acredito na existência do texto, mas não na vivência dele no dia a dia da população em geral. Espero estar errada, prefiro estar errada e ter existido uma época em que as mulheres foram respeitadas, mesmo que em eras passadas.

Porém, hoje em dia o cavalheirismo é o pior tipo de lenda, aquela que quem criou acredita que existe. Cavalheirismo foi criado pelos homens como uma forma de convencer que uns homens são melhores que outros por tratarem as mulheres de forma gentil. E há ali uma mensagem subentendida de que só mulheres boazinhas encontram um cavalheiro.

Para aquelas heterossexuais há toda uma idealização do príncipe, aquele homem que irá nos completar. Acreditamos que há uma tampa para toda panela, e quando não a encontramos acham que tem algo de errado com a gente. Pior que isso, achamos que tem algo de errado com a gente. Só que o príncipe, aquele alguém ideal que vai nos fazer feliz não existe. O que há de mais próximo é o Shrek, o ogro sangue-bom.

A situação não melhora quando encontramos uma pessoa que acaba se mostrando um cafajeste, pois continuamos pensando que a culpa é nossa, que não somos boas o suficiente para nosso companheiro nos tratar bem. Nós somos direcionadas a querer o príncipe, a acreditar que se formos boas o suficiente daremos o beijo e faremos o sapo que está ao nosso lado se transformar em príncipe. Isso nunca vai acontecer, pois contos-de-fadas não existem e você não tem a obrigação - nem a capacidade - de transformar um sapo em nada, muito menos num príncipe.

A situação para a mulher que acha um Shrek e é feliz com ele muda aos olhos da sociedade. Ela deixa de ser quem não consegue arrumar um macho para se tornar uma mulher de sorte. É ELE que é bom com ela, ELE que move céus e terra para satisfazê-la, ELE que é o dominado, porque a sociedade não consegue conceber que um homem pode ser decente com a mulher simplesmente porque ela também é decente com ele. A mulher sempre é a sortuda nessa equação, e o cara um "abestado" (sim, uma amiga minha ouviu isso de uma mulher).

E o que mais me assusta é a mídia mostrar algo inexistente que é as mulheres conseguindo seus direitos, lei Maria da Penha agindo... Porque é mentira, gente. Essas conquistas acontecem num ritmo tão lento, com um alcance tão pequeno, mas imaginamos que estamos progredindo tanto.

Eu fui criada na periferia de Salvador e agradeço muito, pois isso me dá uma visibilidade da realidade que a muitos ativistas que conheço não tem, é a realidade do gueto, no bairro pobre, das mulheres afrodescendentes e pobres. Patrícia, minha nova secretária, mora num bairro pobre, é afrodescendente também, e nós conversamos bastante sobre as mazelas das mulheres que conhecemos. Enquanto você aí classe média acha que as coisas mudaram muito, ela com a experiência de vida de trabalhar na casa de várias pessoas me falou: "As mulheres hoje em dia estão mais submissas que antigamente". Sou muito pragmática para achar que estamos mais submissas, porém vejo que estamos longe de nos respeitarmos realmente.

Patrícia mora na área mais populosa da cidade, ela vê o que acontece com a maior parte da população brasileira que é pobre como ela. Eu prefiro acreditar no que ela diz sabendo que é muito próximo da verdade que me consolar com vitórias insípidas que tentam nos fazer acreditar. Ainda estamos muito longe de mudar a forma machista do mundo.

Só não podemos deixar de tentar.


*Os nomes foram trocados.
A epígrafe é um trecho da música "What it feels like for a girl", de Madonna.

2 comentários:

  1. Um texto completamente idiota e mesquinho,mas que tem a sua serventia, porque mostra claramente o ideal e a noção puramente utilitarista como nós homens somos vistos pelas mulheres. Notem que na primeira estória a tal Lúcia alega que o rapaz nada tinha a OFERECER à sua namorada, sendo portanto, indigno de estar com ela? É de se perguntar,e.contrapartida: e a filha em questão, o que ELA tinha a oferecer ao dito rapaz ? Apenas a vagina ? Por que não podia como ele procurar o sustento ? Por que os homens têm que se escravizar a vida toda no trabalho ou morrendo em guerras defendendo a outra metade da sociedade que nunca souberam o que são os horrores de um campo de batalha, isto é,as mulheres ? A resposta é simples: ao homem, que é sem sombra de dúvida, o verdadeiro sexo explorado na História humana, ao homem não é dada NENHUMA escolha a não ser passar o resto da vida trabalhando, muitas vezes em trabalhos com os quais não tem qualquer prazer, unicamente para ser considerado válido e cidadão pela sociedade. Para Lúcia e para a sociedade,normal que a filha não esteja trabalhando ,mas é uma monstruosidade o rapaz não o estar. Isso se chama exploração da força de trabalho alheia. E é o maior exemplo do absurdo preconceito que mulheres têm sobre um homem que não seja produtivo para elas nem para a sociedade, logo chamam o cara de fracassado. Por milhares de anos os homens sustentaram suas mulheres desempregadas e elas nunca foram chamadas de vagabundas pelo Estado ou pela polícia em função de não trabalharem, mas ai do homem que ficar lavando pratos em casa pra sua mulher o sustentar. Esse logo receberá todos os ”adjetivos” como vagabundo, gigolô etc. E a propósito de sua total ignorância, sou um homem machista com muito orgulho,sou casado e nunca agredi minha mulher, simplesmente por que ninguém agride mulher por ser machista, mas por causa da confusão emocional gerada pelo desespero de ter sidp trocado(a) por outra pessoa ou ter sido enganado(a) e nosso nãp tem homem ou mulher, todos são vítimas do sentimentp de apego e possessividade. Já presenciei caso em que uma mocinha minha conhecida tramou o sequestro de conhecido radialista de minha cidade por que o sujeito ia casar com outra. Sua ignorante,possessividade ou ciume não escolhem sexo. Já o machismo,do qual sou ferrenho defensor, é a ideia que o homem é superior à mulher, e a própria história humana se encarrega de provar,basta olhar pro seu pc,pro seu celular, microondas, sua calça jeans ou qualquer coisa importante na vida moderna e se perguntar qual foi a mulher,com excessão de Mme. Currie e sua filha Irene, quais as mulheres que deram justa contribuição à raça humana colocando a vida em risco em nome do conhecimento, que é o maior bem que temos.

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  2. ué, cadê os outros comentários desse texto que tavam aqui? só está aparecendo esse exu caveira aí de cima, a caixinha do intense debate sumiu :(

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