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Representação na mídia: personagens homossexuais nas novelas

Queridos, hoje o Minoria é a mãe faz um mês de existência. 

Nós guardamos a ideia do blog com muito carinho por bastante tempo, até conseguir colocar em prática. Queríamos alcançar todos quanto fosse possível, mas não esperávamos que fosse tão rápido assim. Em um mês, já tivemos um pico de quase 10 mil hits em um dia, e sempre recebemos comentários e contatos de pessoas com histórias pra contar, e pra nos agradecer. Nós que agradecemos a vocês por estarem aqui , acompanhando e nos ajudando, lendo, compartilhando e incentivando o respeito, porque era esse mesmo o objetivo. Queríamos chegar até vocês, e estamos muito felizes de estarmos conseguindo.

Muito amor pra todos vocês, e pra todos que ainda virão 

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Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), casal gay da novela América (2005). A cena do beijo chegou a ser gravada, mas nunca foi ao ar.

A televisão brasileira basicamente vive de novela. Especialmente as da Globo. E do fim dos anos noventa pra cá, você, caso tenha assistido alguma delas, provavelmente já viu personagens gays ou lésbicas. Curiosamente, não me lembro de nenhum bissexual que tivesse uma representação   boa (se houve, contem pra gente nos comentários). Falo dos anos noventa pra cá porque é de onde tenho ouvido falar de personagens criados especialmente para se falar do assunto. Então vamos falar sobre isso hoje.

O problema dessa tentativa de inclusão é que, apesar da intenção ser, erm, boa, ela incorre no erro do “personagem-cota”. O personagem-cota é aquele está ali só pra representar uma classe específica, só pra mostrar “olha, eu coloquei um, não estou fingindo que não existem!”, num caso muito parecido com o clássico tenho um amigo gay, logo não sou preconceituoso.

Em 1998, na novela Torre de Babel (da qual eu só me lembro vagamente. Eu tinha uns cinco ou seis anos na época), havia um casal de lésbicas. O público não gostou muito, a audiência caiu, e elas convenientemente morreram num incêndio junto com outros personagens rejeitados. Em 2003 (e aqui eu já me lembro claramente), Alinne Moraes e Paula Picarelli viveram Clara e Rafaela, um casal de estudantes. Lembro especialmente de duas cenas: uma em que a mãe da Clara diz que vai denunciar a Rafaela por abuso de menor - porque uma tinha dezoito anos e a outra dezessete, se não me engano. E a outra foi o beijo, numa peça da escola em que uma delas era a Julieta e a outra teve que ficar no lugar do rapaz que seria o Romeu. O beijo, na verdade, foi um selinho, mas para a época era um evento.  

A partir daí, praticamente todas as novelas das oito incluíam um personagem homossexual, ou um casal. Com o tempo o número aumentou um pouco e eles puderam ser incluídos em outros horários, mas de todo modo ainda são personagens-cota.

As novelas brasileiras são assistidas por milhões de pessoas todos os dias. São um instrumento de comunicação imenso, se você for parar pra pensar. Se uma coisa acontece na novela num dia, todo mundo sabe no outro; mesmo se não assistir, vai ouvir alguém comentando. Mostrar para todo mundo que nós, pessoas queer¹, existimos é o mínimo que se poderia esperar de uma mídia de tamanho alcance. Mas, como eu comentei no começo, é claro que existem problemas e a representação se torna uma faca de dois gumes.

Existem dois casos clássicos: o gay afetado, que vêm aparecendo em todos os tipos de mídia desde o começo do século passado como alívio cômico, e que geralmente não tem par romântico. No seriado Queer as Folk (exibido na TV paga no Brasil entre 2000 e 2005 como Os Assumidos), havia um personagem chamado Emmett que encarnava muito dos estereótipos gays, das roupas coloridas até a purpurina - e não, ele não era apenas um alívio cômico. Era uma pessoa, com uma história e interesses e tudo o mais, vejam vocês. Um dia, o Emmett é convidado para fazer um “quadro gay” em um telejornal, dando dicas de beleza e etc. Tudo corre muito bem, até o dia em que ele faz uma referência qualquer a sexo e é sumariamente demitido. A moral da história é simples e cruel: ser gay e ser “afeminado” é okay, as pessoas acham divertido e engraçado, mas só até o momento em que são lembradas de que, opa, eles são pessoas também, com vidas e tudo o mais.

Emmett Honeycutt (Peter Paige) em seu quadro, Queer Guy (O Cara Gay)

O segundo caso clássico é o do casal perfeito. Eles vivem juntos, se amam, tem ótimos empregos, ótimas famílias, quase não sofrem preconceito - e curiosamente quase nunca se tocam. No máximo um abraço amigável e uma insinuação de que dormem na mesma cama.

O primeiro caso, infelizmente, ainda é usado apenas pra alívio cômico. O personagem afeminado nunca é levado a sério em uma novela – em outras mídias, podemos dizer quase nunca. O segundo caso é uma tentativa de mostrar que está tudo bem, olha como tudo é normal e inofensivo, mas costuma falhar na representação, não se dando o direito nem de mostrar a dinâmica de um casal.

Casais de lésbicas têm algumas liberdades a mais. Reflexo do fato de ainda ser considerado mais light para ser mostrado. Um casal de mulheres ofende menos o público do que um casal de homens.  

No começo desse ano, o ator Marcelo Serrado – que atualmente interpreta o Crô em Fina Estampa – declarou o seguinte em uma entrevista:

"Isso é algo que tem que ir quebrando aos poucos. Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30."

Crodoaldo Valério, o Crô (Marcelo Serrado)

De um lado o chamaram de homofóbico, do outro ele tentou se defender dizendo que não foi bem isso que quis dizer e que, bem, ele tem amigos gays, como poderia ser preconceituoso? O fato é que basicamente todo mundo tem sim comportamento preconceituosos, com mais ou menos frequência, mesmo que não pareçam ou que ela nem saiba que tenha. O que nós podemos entender da declaração é muito claro e está na nossa cara todos os dias, até no modo como os personagens são construídos: mostrar um “comportamento gay” na televisão aberta, com um alcance nacional, é comparável a mostrar alguma cena obscena que crianças, por exemplo, não deveriam ver. Acho que nem preciso listar aqui, no entanto, tudo que dê pra se considerar obsceno na televisão em todos os horários antes das 23h30, e entre eles certamente não vai figurar um beijo heterossexual. Porque, pra início de conversa, ninguém fala em beijo hetero – ele não precisa ser definido, ele é o padrão. O beijo entre dois homens ou duas mulheres, no entanto, ainda é um tabu que chocaria as pessoas. A princípio isso não faz sentido nenhum; um beijo, chocando as pessoas? 

Mas o pior é que a verdade. Hoje, em pleno 2012, ainda se acha que um beijo entre duas pessoas é informação demais para a família brasileira. Logo, há o risco de perder audiência, e assim tudo o que é considerado pesado demais vai sendo suavizado ou jogado para os canais pagos ou para os horários da madrugada.

Quando eu estava pesquisando umas coisas pra escrever esse post, esbarrei em um texto do Walcyr Carrasco, que defendia o Marcelo Serrado na ocasião da declaração sobre o beijo gay. E ele diz o seguinte:

“Por que os casais gays, amparados pela lei, não começam a se beijar nos shoppings, nos restaurantes, a passear de mãos dadas como já acontece em outras partes do mundo?
Se isso acontecer, ninguém mais terá receio do choque da filha assistir um beijo gay na TV. Porque já terá visto na rua. A tv será obrigada não a mostrar um beijo gay, mas a realidade das relações homoafetivas, porque elas farão parte do comportamento social.”

E eu fiquei pensando: gente, será que antes de falar ele realmente não parou pra pensar no por que de não ver tantas “manifestações de afeto” na rua? Pra início de conversa não é tão exato falar em outras partes do mundo; existem lugares, sim, em que o preconceito não é tão pronunciado, mas ao mesmo tempo em que ainda existem outros em que segurar a mão de uma pessoa do mesmo sexo pode te render um bom tempo na cadeia. E, bem, não é como se não houvesse manifestação; há, sim, e bem mais do que no passado, mas ainda estamos engatinhando no simples direito de andar na rua como qualquer casal hetero pode fazer.

As diversas orientações sexuais que existem não apareceram no mundo de um dia pro outro. O que difere é como somos vistos a cada época, em cada sociedade, cada cultura. E hoje em dia, infelizmente, ainda funciona assim: se você está com uma pessoa do mesmo sexo na rua e vocês se beijam, ou simplesmente dão a entender que são um casal, ou simplesmente pareçam um casal pra quem estiver vendo, não há lei que te proteja completamente de ser desrespeitado, espancado ou até mesmo morto. E, não, o problema não é a sua manifestação de afeto, e sim o fato de vivermos numa estrutura que possibilita que desrespeito e crimes de ódio sejam cometidos e até incentivados.

As relações homoafetivas são parte da sociedade. Só não são vistas ou mostradas como tal com freqüência porque, claro, fogem do padrão. A TV aberta não pode mostrar um beijo gay não porque nós não nos mostramos o suficiente, mas sim como um reflexo do que as pessoas ainda não conseguem encarar de frente.

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¹queer: termo genérico para minorias sexuais que não são heterossexuais, heteronormativas ou que não seguem a binária de gênero (masculino-feminino). a princípio, era usado pejorativamente (queer significa literalmente estranho, esquisito em inglês), mas o termo tem sido reapropriado e ressignificado pela comunidade LGBT+ nos últimos anos.