Há algum tempo, a Kamila falou sobre a representação na mídia da homossexualidade, focando em personagens gays nas novelas. Aqui, falo sobre outro tipo de representação: você com certeza já ouviu alguém dizer (ou foi a pessoa que disse) que determinada série possuía um casal homossexual – e era entre dois personagens que na tela aparentemente eram apenas amigos e héteros. O nome disso é bromance ou ho yay. E hoje teremos um guest post do bróder Voldie a respeito disso e de como isso pode ser um produto da homofobia.
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Antes, uma explicação que tirei do formspring da Fernanda, que escreve também no Feminerds:
"Bromance seria, na base, uma relação de amizade bem íntima entre dois caras (embora já tenho visto o termo aplicado para duas mulheres e uma mulher e um homem). É só pura relação de amizade.
Ho Yay é quando uma obra de ficção escreve algo que parece romance, cheira como romance, tem som de romance, gosto de romance e cara de romance, mas chamam de "amizade" porque é entre dois homens. Leia-se: Quando autores (intencionalmente ou não) tiram vantagem da necessidade desesperada de relações gays na mídia para colocar um SUBTEXTO homoerótico/romântico extremo, na medida certa para deixar as pessoas interessadas esperançosas sem perturbar nenhum homofóbico." (leia na íntegra)
Só fanservice? - por Voldie
Supernatural. Sherlock. House. Existe algo em comum entre essas séries, embora a maioria das pessoas que as acompanham não o enxergue, ou, se o enxerga, distorce. Todas essas apresentam relações entre dois homens muito bem construídas, profundas e extremamente emocionais. Do pedido de casamento de Wilson para House, num restaurante, no décimo episódio da sexta temporada; aos sacrifícios feitos por Castiel para garantir a liberdade de Dean Winchester; passando pela devoção e fé de John Watson em relação ao seu flatmate, Sherlock Holmes. Dos desesperados “I need you!’’ exclamados por House para Wilson, da despedida chorosa e trágica entre Sherlock e John, até as angustiadas trocas de olhares, e invasões de espaço pessoal, divididas por Castiel e Dean. Não há duvida que os personagens citados acima se amam. Bom, na verdade há sim.
São todos homens. Portanto, suas demonstrações de afeto, embora mais apaixonadas que as dirigidas a personagens mulheres, não passam de material para atrair garotas que gostam de ver dois homens juntos. É mais ou menos essa a resposta que recerá alguém que defenda esses casais baseado em todas as evidências no próprio programa – ou seja, no canon. Não importa o quão profunda e bem explorada a relação entre os dois personagens do mesmo sexo seja – a “amizade” entre House e Wilson é inegavelmente um dos pilares da série – tudo o que eles fizerem em cena que indique amor/envolvimento sexual vai ser encarado como fanservice (literalmente “serviço para os fãs", cenas colocadas numa série, anime ou filme sem importância narrativa real, apenas para agradar uma audiência específica), ou, então, uma “brincadeira” dos roteiristas.
Há variados comentários de críticos sobre como os diretores ou os escritores de uma série ou filme “brincam” com o subtexto homoerótico, nunca levando a sério a possibilidade de um real envolvimento entre os personagens. Para boa parte do publico, gays (a possibilidade de personagens bissexuais é completamente descartada) existem sim, mas lá longe, em seus próprios guetos televisivos, não em séries populares. Parece impossível para uma grande fatia da audiência, que seus personagens queridos estejam em relacionamentos não-heterossexuais. Então, mesmo quando as evidências são colocadas à exaustão, os ofendidos se defendem dizendo que os roteiristas incluem cenas do tipo para agradar os fãs de slash (termo do fandom para "relacionamento homossexual"). Nada daquilo foi feito para ser levado a sério. Até que haja um beijo, ou, ainda mais, provas de relações sexuais, dois personagens do mesmo sexo não podem ser considerados um casal “no canon”.
"Se Dean, em Supernatural, fosse um personagem do gênero feminino, não haveria a menor dúvida acerca de seu envolvimento amoroso com Castiel", como afirma o site SpoilerTv. Mas, uma vez que vivemos em uma sociedade heteronormativa, o fato de Castiel ter resgatado Dean do inferno, rejeitado/traído sua família e o Paraíso, matado, sangrado e se sacrificado por ele, não cabe na categoria amor porque ambos são do mesmo gênero. Por outro lado, a amizade sem segundas intenções entre um homem e uma mulher nunca é levada a sério, sempre colocada no campo da "tensão sexual", como no caso de Olivia Benson e Elliot Stabler, da série Law and Order: SVU.
Não é apenas uma velada – ou nem tanto – homofobia do público que é explicitada quando tais fatos são analisados, mas também uma visão limitada e generalizada da sexualidade humana. Dean Winchester, por exemplo, pode ser heterossexual e ainda assim estar apaixonado por outro homem. Tão improvável quanto a homossexualidade do personagem para a maior parte do publico é a possibilidade de outros tipos de sexualidade e afeto.
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(o título do post é uma fala do Turk pro JD, de Scrubs, outro clássico exemplo de bromance)
