Sobre o blog

"We're a little married, dude" - heterosexual life partners


Há algum tempo, a Kamila falou sobre a representação na mídia da homossexualidade, focando em personagens gays nas novelas. Aqui, falo sobre outro tipo de representação: você com certeza já ouviu alguém dizer (ou foi a pessoa que disse) que determinada série possuía um casal homossexual – e era entre dois personagens que na tela aparentemente eram apenas amigos e héteros. O nome disso é bromance ou ho yay. E hoje teremos um guest post do bróder Voldie a respeito disso e de como isso pode ser um produto da homofobia.



Antes, uma explicação que tirei do formspring da Fernanda, que escreve também no Feminerds:

"Bromance seria, na base, uma relação de amizade bem íntima entre dois caras (embora já tenho visto o termo aplicado para duas mulheres e uma mulher e um homem). É só pura relação de amizade.

Ho Yay é quando uma obra de ficção escreve algo que parece romance, cheira como romance, tem som de romance, gosto de romance e cara de romance, mas chamam de "amizade" porque é entre dois homens. Leia-se: Quando autores (intencionalmente ou não) tiram vantagem da necessidade desesperada de relações gays na mídia para colocar um SUBTEXTO homoerótico/romântico extremo, na medida certa para deixar as pessoas interessadas esperançosas sem perturbar nenhum homofóbico." (leia na íntegra)


Só fanservice? - por Voldie

Supernatural. Sherlock. House. Existe algo em comum entre essas séries, embora a maioria das pessoas que as acompanham não o enxergue, ou, se o enxerga, distorce. Todas essas apresentam relações entre dois homens muito bem construídas, profundas e extremamente emocionais. Do pedido de casamento de Wilson para House, num restaurante, no décimo episódio da sexta temporada; aos sacrifícios feitos por Castiel para garantir a liberdade de Dean Winchester; passando pela devoção e fé de John Watson em relação ao seu flatmate, Sherlock Holmes. Dos desesperados “I need you!’’ exclamados por House para Wilson, da despedida chorosa e trágica entre Sherlock e John, até as angustiadas trocas de olhares, e invasões de espaço pessoal, divididas por Castiel e Dean. Não há duvida que os personagens citados acima se amam. Bom, na verdade há sim.

São todos homens. Portanto, suas demonstrações de afeto, embora mais apaixonadas que as dirigidas a personagens mulheres, não passam de material para atrair garotas que gostam de ver dois homens juntos. É mais ou menos essa a resposta que recerá alguém que defenda esses casais baseado em todas as evidências no próprio programa – ou seja, no canon. Não importa o quão profunda e bem explorada a relação entre os dois personagens do mesmo sexo seja – a “amizade” entre House e Wilson é inegavelmente um dos pilares da série – tudo o que eles fizerem em cena que indique amor/envolvimento sexual vai ser encarado como fanservice (literalmente “serviço para os fãs", cenas colocadas numa série, anime ou filme sem importância narrativa real, apenas para agradar uma audiência específica), ou, então, uma “brincadeira” dos roteiristas.

Há variados comentários de críticos sobre como os diretores ou os escritores de uma série ou filme “brincam” com o subtexto homoerótico, nunca levando a sério a possibilidade de um real envolvimento entre os personagens. Para boa parte do publico, gays (a possibilidade de personagens bissexuais é completamente descartada) existem sim, mas lá longe, em seus próprios guetos televisivos, não em séries populares. Parece impossível para uma grande fatia da audiência, que seus personagens queridos estejam em relacionamentos não-heterossexuais. Então, mesmo quando as evidências são colocadas à exaustão, os ofendidos se defendem dizendo que os roteiristas incluem cenas do tipo para agradar os fãs de slash (termo do fandom para "relacionamento homossexual"). Nada daquilo foi feito para ser levado a sério. Até que haja um beijo, ou, ainda mais, provas de relações sexuais, dois personagens do mesmo sexo não podem ser considerados um casal “no canon”.

"Se Dean, em Supernatural, fosse um personagem do gênero feminino, não haveria a menor dúvida acerca de seu envolvimento amoroso com Castiel", como afirma o site SpoilerTv. Mas, uma vez que vivemos em uma sociedade heteronormativa, o fato de Castiel ter resgatado Dean do inferno, rejeitado/traído sua família e o Paraíso, matado, sangrado e se sacrificado por ele, não cabe na categoria amor porque ambos são do mesmo gênero. Por outro lado, a amizade sem segundas intenções entre um homem e uma mulher nunca é levada a sério, sempre colocada no campo da "tensão sexual", como no caso de Olivia Benson e Elliot Stabler, da série Law and Order: SVU.

Não é apenas uma velada – ou nem tanto – homofobia do público que é explicitada quando tais fatos são analisados, mas também uma visão limitada e generalizada da sexualidade humana. Dean Winchester, por exemplo, pode ser heterossexual e ainda assim estar apaixonado por outro homem. Tão improvável quanto a homossexualidade do personagem para a maior parte do publico é a possibilidade de outros tipos de sexualidade e afeto.

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(o título do post é uma fala do Turk pro JD, de Scrubs, outro clássico exemplo de bromance)

Sobre a necessidade de acreditar em deus (e as palavras)


Fui criada em uma família que pratica o que eu chamo de “catolicismo padrão”. O católico brasileiro padrão é aquele que conhece e até segue as tradições básicas da religião, mas não a pratica à risca - só vai pra missa em ocasiões especiais, por exemplo. 

Eu segui algumas das tradições católicas no começo. Fui batizada, fiz catecismo, aprendi a rezar, tentei até ler a Bíblia algumas vezes, mas confesso que nunca consegui terminar. O fato do qual eu tentei fugir durante muitos anos, no entanto, foi que nada disso me tocava. Então eu evitei a questão até que finalmente consegui encará-la de frente e me questionar: afinal, eu acredito em deus ou não? E isso é mesmo necessário? Quando eu finalmente consegui me perguntar isso, cheguei a uma estranha conclusão: meu problema nunca foi com deus, mas sim com a religião.

Mas eu queria chegar no seguinte fato: quando criança, dificilmente alguém vai te dizer que existe a possibilidade de questionar deus, ou a religião. Mas você geralmente questiona assim mesmo, é isso que crianças fazem. Só que, em um momento ou em outro, você acaba absorvendo que, afinal, não existe por que questionar. Desde muito cedo somos ensinados que existe uma necessidade inerente a todo ser humano de acreditar em um deus. Se converter para outra religião ou não ter religião nenhuma não é tão condenável do que não acreditar em deus, porque isso simplesmente não é visto como uma possibilidade.

O cristianismo em geral nunca me tocou porque eu não via sentido nele. Jesus pode ter existido e ter sido um cara legal, mas por que as pessoas precisam tentar provar isso, eu me perguntava. Por que as pessoas que são de outras religiões vão automaticamente pro inferno? O que me dá o direito de considerar a minha religião verdadeira e as outras falsas? Por que eu tenho que fazer coisas boas visando agradar a deus pra que eu vá para o paraíso quando morrer? Por que as pessoas não amam e respeitam as outras, se era isso que Jesus queria e é a ele que elas estão seguindo? Por que deus pedia sacrifícios? Por que deus achou que seria uma boa ideia fazer um dilúvio? Por que as pessoas não entendem que o Jardim do Éden é uma metáfora? Por que as pessoas insistem que religião e ciência são mutuamente excludentes?

Então eu aprendi que deveria construir minhas crenças. E, na minha cabeça, as coisas devem fazer sentido. O conceito de divindade - especialmente a judaico-cristã - não era lógica o suficiente e nunca entrou na minha cabeça. No entanto, mesmo achando perfeitamente plausível que deus não existisse, eu ainda acreditava. E cheguei à conclusão de que, bem, ele existe pra mim. O que eu chamo de deus pra facilitar a vida na verdade não é uma personificação, mas sim uma força universal, por mais brega que isso possa soar. É aquilo que rege as leis da física, a matemática, o nascimento e morte das estrelas, o funcionamento perfeito dos órgãos do corpo humano. Isso tudo sempre foi mais divino pra mim do que o sermão do padre. Isso tudo sempre me tocou, sempre me fez admirar o mundo e o simples fato de existirmos. E é justamente isso que eu acho tão importante: conseguir admirar a existência.

Resumindo a história, hoje em dia eu já descobri que isso tem um nome: eu sou teísta agnóstica. O que basicamente significa que eu acredito em deus, da minha própria maneira, mas que não tenho como saber se ele de fato existe ou não e na verdade não me importo muito em saber. A definição simples de agnosticismo, aliás, é essa: a visão de que a razão humana é incapaz de proporcionar fundamentos racionais suficientes para justificar o conhecimento da existência ou não de Deus. [Wikipedia]

O que eu quero dizer com isso tudo é que, assim como em qualquer outro aspecto da vida, não vale a pena tentar impor sua religião sobre outra pessoa. Algumas coisas simplesmente não funcionam para algumas pessoas, assim como o catolicismo não funcionou pra mim. Às vezes nós nos damos bem com aquilo que nos é ensinado e às vezes nós precisamos ir atrás do que vai dar certo pra gente. Às vezes nós simplesmente não precisamos. O fato de acreditar em um deus em nenhum momento torna uma pessoa melhor do uma que não acredita - e o contrário também é verdadeiro: não acreditar em deus não torna ninguém melhor do que outra pessoa. 

Somos muito mais do que uma característica só na vida. Às vezes a sua religião define o seu modo de viver, às vezes você simplesmente não tem uma. Eu não tenho um problema específico com religião alguma, além do fato de não compreendê-las totalmente. O único problema, ao meu ver, acontece quando você usa o seu deus e a sua religião como uma muleta para o desrespeito. Não conheço nenhuma religião que pregue o desrespeito ao próximo; e, no entanto, muitas vezes ela é usada a torto e a direito como uma desculpa plausível para isso. O fato de a sua religião condenar a homossexualidade, por exemplo (o que por si só já é um fato questionável), não te dá o direito de desrespeitar alguém e não faz com que esse ato seja menos condenável. 

Li em algum lugar uma vez que algumas pessoas estavam reclamando do fato de a lei contra a homofobia estar comprometendo a liberdade de expressão. O argumento era que não poderia ser considerado crime o fato de a sua religião condenar a homossexualidade e você seguir isso. Acontece aqui um erro muito claro de interpretação: existe uma grande diferença entre você não gostar de homossexuais - seja lá por qual motivo for - e cometer algum crime de ódio ou desacato. Nesse momento, a bandeirinha da opinião costuma ser levantada, e ela é muito perigosa. "Eu não tenho preconceito, só não gosto de viado, por que vocês não respeitam a minha opinião?"

O perigo desse argumento é que ele mascara o preconceito com a liberdade de expressão. Veja você o caso do Danilo Gentilli e da piada do macaco: "Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?", ele disse. Isso é uma distorção do conceito de poder. Eu posso fazer muitas coisas. Pra falar a verdade, eu posso fazer praticamente qualquer coisa, mas eu não faço, por diversos motivos. Um deles é que nós não devemos fazer algumas coisas, apesar de teoricamente poder. 

Eu uso palavras que dificilmente seriam consideradas politicamente corretas. Mas uso dentro de um determinado grupo, onde nós nos apropriamos dessas palavras e onde elas não são usadas como ofensa. Eu digo “viadagem” com essas pessoas, mas em momento nenhum digo em qualquer outro lugar. Porque em qualquer outro lugar, e sem um acordo prévio entre as pessoas que estão ouvindo, eu vou simplesmente estar ofendendo alguém. Há muito e muito tempo, convencionou-se que viado é um xingamento, pois significa que você está chamando a pessoa de gay. Um heterossexual costuma se ofender com isso porque não quer ser confundido com um homossexual. Um homossexual, no entanto, se ofende porque convencionou-se que o termo deveria ser ofensivo. Ele se ofende com a sua própria sexualidade porque nos fazem acreditar que ela está errada e que devemos ter vergonha. 

Eu já fui chamada de puta várias vezes, nos mais variados contextos e por pessoas diferentes. Em pouquíssimas me senti realmente atingida, mas foi mais porque a pessoa realmente acreditava que aquilo era uma ofensa, e das piores. Eu gosto da palavra puta - acho sonoro, acho bonito. Mas convencionou-se que puta é uma coisa ruim pra se dizer a uma pessoa, porque é basicamente dizer que ela faz sexo por dinheiro. No entanto, curiosamente, puta não é tão usado assim nesse contexto; quantas vezes você já não ouviu alguém se referir a alguma moça como puta porque ela gosta de sexo ou por que se veste de determinada maneira? O fato de ser um xingamento só reflete mais ainda o fato de a sexualidade da mulher ser condenada.

Nós não ofendemos e somos ofendidos por palavras, pura e simplesmente, mas sim pelo significado que foi atribuído a elas e que nós absorvemos. Vamos parar um pouco e pensar, então, no que estamos falando, no que estamos ouvindo e, principalmente, no que estamos entendendo disso tudo.

Cavalheirismo - a medida do machismo



"Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
'Cause it's OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
'Cause you think that being a girl is degrading"


Vou contar duas pequenas histórias aqui. A primeira é da diarista que fazia faxina aqui em casa, a Lucia*. Uma senhora de seus quase cinquenta anos, afrodescendente e mãe solteira. A filha única dela, Priscila*, também é mãe solteira, e a Lucia não sabe quem é o pai, porque ela não quis contar. O último namorado de Priscila era um rapaz desempregado. Nas palavras de Lucia, ele era um rapaz bom, não era metido em drogas, o único problema é que não tinha nada para oferecer à Priscila. Esse nada a oferecer que ela fala é financeiramente. Priscila e a filhinha são sustentadas por Lucia que faz plantão na cozinha de uma penintenciária em noites alternadas, além de faxinas durante a semana.

Esse namorado, além de não ter nada a oferecer a Priscila, é ciumento. Então um dia em que Lucia estava no trabalho, ele foi na casa dela bater em Priscila, porque achava que ela estava com outro homem. Foi um escândalo na rua. Lucia só ficou sabendo pelos vizinhos quando voltou do trabalho horas mais tarde. A moça não quis denunciar o ex-namorado (agora já era ex), e como ela já tinha atingido a maioridade Lucia também não podia denunciar em seu  lugar. Lucia ficou revoltada e proibiu o rapaz de entrar na casa dela caso a filha resolvesse voltar a namorar com ele. Ela me falou "Se ele desse alguma coisa a ela, mas não, ele não dá nada a ela, aí vem e bate."

Onde está o erro nessa história? Pergunto melhor, onde NÃO TEM erro nessa história? Ela está errada do começo ao fim. Primeiro com mãe solteira sustentando filha maior de idade e neta, vai piorando com o rapaz batendo na namorada, culminando com a frase "Se ele desse alguma coisa a ela" como se dar algo a Priscila fosse um possível direito adquirido de bater.

Nesse dia eu conversei muito com Lucia. Falei que ele não tinha nunca direito de bater nela, mesmo que ele a sustentasse, mesmo que ela realmente estivesse com outro homem. Ela não é propriedade dele. Meu discurso caiu em ouvidos vazios.

A segunda história foi contada pela minha atual secretária, a Patrícia*. Ela trabalhou para uma mulher casada que mantinha a casa sustentando também ao marido. Ele era obeso mórbido, e tinha a característica peculiar de ser um troglodita miserável. A patroa dizia para Patrícia esconder a comida, senão ele comia tudo, porém, se ele não achasse a comida ele xingava Patrícia de tudo quanto era palavrão e batia na mulher quando ela chegava em casa. Ele já tinha feito várias cirurgias de redução do estômago e sempre voltava ao peso de antes, e isso era uma preocupação para a mulher.

Um certo dia ela falou a Patrícia que não ia mais querer os serviços dela porque iria se separar e não poderia pagá-la. Com certo alívio Patrícia voltou pra casa, pensando que tinha se livrado daquele patrão louco. No dia seguinte a mulher ligou para Patrícia pedindo para ela voltar, pois não ia se separar mais do marido. Aquele homem dizia para quem quisesse ouvir que todo marido batia na mulher, que todo marido tinha que bater na mulher, que essa era a forma certa das coisas. Patrícia pediu desculpas, mas não voltou a trabalhar com aquela família.

Dessa vez nem vou perguntar o que está errado com essa história, pois creio que quem parar para ler esse texto terá um pouco de sensatez.

Lembro que na minha adolescência eu queria ter nascido homem. Sempre me identifiquei mais com os meninos, a maioria de meus amigos de verdade são homens, e eu achava que era porque eu não gostava de mulher. Recentemente descobri que não é isso. Eu gosto de mulher, apenas odeio quando a mulher é machista, e a maioria das mulheres que conheci são machistas. Nós somos ensinadas que somos falsas, que não existe amiga de verdade, que tomamos os namorados umas às outras, que mulher é fofoqueira, que mulher isso, aquilo e aquilo outro. E tudo isso nos dizem que é característica da mulher. Só que há algo pior que nos criarem achando que somos seres perigosos: é nos criarem acreditando na lenda do cavalheirismo.

Uma amiga estava comentando comigo que o auge do cavalheirismo "no ciclo Arturiano foi em Sir Gwain and the Green Knight - cuja ultima lição era de que um homem não era verdadeiramente um cavalheiro ou digno se não respeitasse o fato de que apenas as mulheres podiam decidir sobre suas vidas - E ESSE É UM TEXTO DO SÉCULO XII" (sic). Só que eu não consigo ler algo assim e simplesmente acreditar que era assim. Acredito na existência do texto, mas não na vivência dele no dia a dia da população em geral. Espero estar errada, prefiro estar errada e ter existido uma época em que as mulheres foram respeitadas, mesmo que em eras passadas.

Porém, hoje em dia o cavalheirismo é o pior tipo de lenda, aquela que quem criou acredita que existe. Cavalheirismo foi criado pelos homens como uma forma de convencer que uns homens são melhores que outros por tratarem as mulheres de forma gentil. E há ali uma mensagem subentendida de que só mulheres boazinhas encontram um cavalheiro.

Para aquelas heterossexuais há toda uma idealização do príncipe, aquele homem que irá nos completar. Acreditamos que há uma tampa para toda panela, e quando não a encontramos acham que tem algo de errado com a gente. Pior que isso, achamos que tem algo de errado com a gente. Só que o príncipe, aquele alguém ideal que vai nos fazer feliz não existe. O que há de mais próximo é o Shrek, o ogro sangue-bom.

A situação não melhora quando encontramos uma pessoa que acaba se mostrando um cafajeste, pois continuamos pensando que a culpa é nossa, que não somos boas o suficiente para nosso companheiro nos tratar bem. Nós somos direcionadas a querer o príncipe, a acreditar que se formos boas o suficiente daremos o beijo e faremos o sapo que está ao nosso lado se transformar em príncipe. Isso nunca vai acontecer, pois contos-de-fadas não existem e você não tem a obrigação - nem a capacidade - de transformar um sapo em nada, muito menos num príncipe.

A situação para a mulher que acha um Shrek e é feliz com ele muda aos olhos da sociedade. Ela deixa de ser quem não consegue arrumar um macho para se tornar uma mulher de sorte. É ELE que é bom com ela, ELE que move céus e terra para satisfazê-la, ELE que é o dominado, porque a sociedade não consegue conceber que um homem pode ser decente com a mulher simplesmente porque ela também é decente com ele. A mulher sempre é a sortuda nessa equação, e o cara um "abestado" (sim, uma amiga minha ouviu isso de uma mulher).

E o que mais me assusta é a mídia mostrar algo inexistente que é as mulheres conseguindo seus direitos, lei Maria da Penha agindo... Porque é mentira, gente. Essas conquistas acontecem num ritmo tão lento, com um alcance tão pequeno, mas imaginamos que estamos progredindo tanto.

Eu fui criada na periferia de Salvador e agradeço muito, pois isso me dá uma visibilidade da realidade que a muitos ativistas que conheço não tem, é a realidade do gueto, no bairro pobre, das mulheres afrodescendentes e pobres. Patrícia, minha nova secretária, mora num bairro pobre, é afrodescendente também, e nós conversamos bastante sobre as mazelas das mulheres que conhecemos. Enquanto você aí classe média acha que as coisas mudaram muito, ela com a experiência de vida de trabalhar na casa de várias pessoas me falou: "As mulheres hoje em dia estão mais submissas que antigamente". Sou muito pragmática para achar que estamos mais submissas, porém vejo que estamos longe de nos respeitarmos realmente.

Patrícia mora na área mais populosa da cidade, ela vê o que acontece com a maior parte da população brasileira que é pobre como ela. Eu prefiro acreditar no que ela diz sabendo que é muito próximo da verdade que me consolar com vitórias insípidas que tentam nos fazer acreditar. Ainda estamos muito longe de mudar a forma machista do mundo.

Só não podemos deixar de tentar.


*Os nomes foram trocados.
A epígrafe é um trecho da música "What it feels like for a girl", de Madonna.

Representação na mídia: personagens homossexuais nas novelas

Queridos, hoje o Minoria é a mãe faz um mês de existência. 

Nós guardamos a ideia do blog com muito carinho por bastante tempo, até conseguir colocar em prática. Queríamos alcançar todos quanto fosse possível, mas não esperávamos que fosse tão rápido assim. Em um mês, já tivemos um pico de quase 10 mil hits em um dia, e sempre recebemos comentários e contatos de pessoas com histórias pra contar, e pra nos agradecer. Nós que agradecemos a vocês por estarem aqui , acompanhando e nos ajudando, lendo, compartilhando e incentivando o respeito, porque era esse mesmo o objetivo. Queríamos chegar até vocês, e estamos muito felizes de estarmos conseguindo.

Muito amor pra todos vocês, e pra todos que ainda virão 

*

Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro), casal gay da novela América (2005). A cena do beijo chegou a ser gravada, mas nunca foi ao ar.

A televisão brasileira basicamente vive de novela. Especialmente as da Globo. E do fim dos anos noventa pra cá, você, caso tenha assistido alguma delas, provavelmente já viu personagens gays ou lésbicas. Curiosamente, não me lembro de nenhum bissexual que tivesse uma representação   boa (se houve, contem pra gente nos comentários). Falo dos anos noventa pra cá porque é de onde tenho ouvido falar de personagens criados especialmente para se falar do assunto. Então vamos falar sobre isso hoje.

O problema dessa tentativa de inclusão é que, apesar da intenção ser, erm, boa, ela incorre no erro do “personagem-cota”. O personagem-cota é aquele está ali só pra representar uma classe específica, só pra mostrar “olha, eu coloquei um, não estou fingindo que não existem!”, num caso muito parecido com o clássico tenho um amigo gay, logo não sou preconceituoso.

Em 1998, na novela Torre de Babel (da qual eu só me lembro vagamente. Eu tinha uns cinco ou seis anos na época), havia um casal de lésbicas. O público não gostou muito, a audiência caiu, e elas convenientemente morreram num incêndio junto com outros personagens rejeitados. Em 2003 (e aqui eu já me lembro claramente), Alinne Moraes e Paula Picarelli viveram Clara e Rafaela, um casal de estudantes. Lembro especialmente de duas cenas: uma em que a mãe da Clara diz que vai denunciar a Rafaela por abuso de menor - porque uma tinha dezoito anos e a outra dezessete, se não me engano. E a outra foi o beijo, numa peça da escola em que uma delas era a Julieta e a outra teve que ficar no lugar do rapaz que seria o Romeu. O beijo, na verdade, foi um selinho, mas para a época era um evento.  

A partir daí, praticamente todas as novelas das oito incluíam um personagem homossexual, ou um casal. Com o tempo o número aumentou um pouco e eles puderam ser incluídos em outros horários, mas de todo modo ainda são personagens-cota.

As novelas brasileiras são assistidas por milhões de pessoas todos os dias. São um instrumento de comunicação imenso, se você for parar pra pensar. Se uma coisa acontece na novela num dia, todo mundo sabe no outro; mesmo se não assistir, vai ouvir alguém comentando. Mostrar para todo mundo que nós, pessoas queer¹, existimos é o mínimo que se poderia esperar de uma mídia de tamanho alcance. Mas, como eu comentei no começo, é claro que existem problemas e a representação se torna uma faca de dois gumes.

Existem dois casos clássicos: o gay afetado, que vêm aparecendo em todos os tipos de mídia desde o começo do século passado como alívio cômico, e que geralmente não tem par romântico. No seriado Queer as Folk (exibido na TV paga no Brasil entre 2000 e 2005 como Os Assumidos), havia um personagem chamado Emmett que encarnava muito dos estereótipos gays, das roupas coloridas até a purpurina - e não, ele não era apenas um alívio cômico. Era uma pessoa, com uma história e interesses e tudo o mais, vejam vocês. Um dia, o Emmett é convidado para fazer um “quadro gay” em um telejornal, dando dicas de beleza e etc. Tudo corre muito bem, até o dia em que ele faz uma referência qualquer a sexo e é sumariamente demitido. A moral da história é simples e cruel: ser gay e ser “afeminado” é okay, as pessoas acham divertido e engraçado, mas só até o momento em que são lembradas de que, opa, eles são pessoas também, com vidas e tudo o mais.

Emmett Honeycutt (Peter Paige) em seu quadro, Queer Guy (O Cara Gay)

O segundo caso clássico é o do casal perfeito. Eles vivem juntos, se amam, tem ótimos empregos, ótimas famílias, quase não sofrem preconceito - e curiosamente quase nunca se tocam. No máximo um abraço amigável e uma insinuação de que dormem na mesma cama.

O primeiro caso, infelizmente, ainda é usado apenas pra alívio cômico. O personagem afeminado nunca é levado a sério em uma novela – em outras mídias, podemos dizer quase nunca. O segundo caso é uma tentativa de mostrar que está tudo bem, olha como tudo é normal e inofensivo, mas costuma falhar na representação, não se dando o direito nem de mostrar a dinâmica de um casal.

Casais de lésbicas têm algumas liberdades a mais. Reflexo do fato de ainda ser considerado mais light para ser mostrado. Um casal de mulheres ofende menos o público do que um casal de homens.  

No começo desse ano, o ator Marcelo Serrado – que atualmente interpreta o Crô em Fina Estampa – declarou o seguinte em uma entrevista:

"Isso é algo que tem que ir quebrando aos poucos. Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30."

Crodoaldo Valério, o Crô (Marcelo Serrado)

De um lado o chamaram de homofóbico, do outro ele tentou se defender dizendo que não foi bem isso que quis dizer e que, bem, ele tem amigos gays, como poderia ser preconceituoso? O fato é que basicamente todo mundo tem sim comportamento preconceituosos, com mais ou menos frequência, mesmo que não pareçam ou que ela nem saiba que tenha. O que nós podemos entender da declaração é muito claro e está na nossa cara todos os dias, até no modo como os personagens são construídos: mostrar um “comportamento gay” na televisão aberta, com um alcance nacional, é comparável a mostrar alguma cena obscena que crianças, por exemplo, não deveriam ver. Acho que nem preciso listar aqui, no entanto, tudo que dê pra se considerar obsceno na televisão em todos os horários antes das 23h30, e entre eles certamente não vai figurar um beijo heterossexual. Porque, pra início de conversa, ninguém fala em beijo hetero – ele não precisa ser definido, ele é o padrão. O beijo entre dois homens ou duas mulheres, no entanto, ainda é um tabu que chocaria as pessoas. A princípio isso não faz sentido nenhum; um beijo, chocando as pessoas? 

Mas o pior é que a verdade. Hoje, em pleno 2012, ainda se acha que um beijo entre duas pessoas é informação demais para a família brasileira. Logo, há o risco de perder audiência, e assim tudo o que é considerado pesado demais vai sendo suavizado ou jogado para os canais pagos ou para os horários da madrugada.

Quando eu estava pesquisando umas coisas pra escrever esse post, esbarrei em um texto do Walcyr Carrasco, que defendia o Marcelo Serrado na ocasião da declaração sobre o beijo gay. E ele diz o seguinte:

“Por que os casais gays, amparados pela lei, não começam a se beijar nos shoppings, nos restaurantes, a passear de mãos dadas como já acontece em outras partes do mundo?
Se isso acontecer, ninguém mais terá receio do choque da filha assistir um beijo gay na TV. Porque já terá visto na rua. A tv será obrigada não a mostrar um beijo gay, mas a realidade das relações homoafetivas, porque elas farão parte do comportamento social.”

E eu fiquei pensando: gente, será que antes de falar ele realmente não parou pra pensar no por que de não ver tantas “manifestações de afeto” na rua? Pra início de conversa não é tão exato falar em outras partes do mundo; existem lugares, sim, em que o preconceito não é tão pronunciado, mas ao mesmo tempo em que ainda existem outros em que segurar a mão de uma pessoa do mesmo sexo pode te render um bom tempo na cadeia. E, bem, não é como se não houvesse manifestação; há, sim, e bem mais do que no passado, mas ainda estamos engatinhando no simples direito de andar na rua como qualquer casal hetero pode fazer.

As diversas orientações sexuais que existem não apareceram no mundo de um dia pro outro. O que difere é como somos vistos a cada época, em cada sociedade, cada cultura. E hoje em dia, infelizmente, ainda funciona assim: se você está com uma pessoa do mesmo sexo na rua e vocês se beijam, ou simplesmente dão a entender que são um casal, ou simplesmente pareçam um casal pra quem estiver vendo, não há lei que te proteja completamente de ser desrespeitado, espancado ou até mesmo morto. E, não, o problema não é a sua manifestação de afeto, e sim o fato de vivermos numa estrutura que possibilita que desrespeito e crimes de ódio sejam cometidos e até incentivados.

As relações homoafetivas são parte da sociedade. Só não são vistas ou mostradas como tal com freqüência porque, claro, fogem do padrão. A TV aberta não pode mostrar um beijo gay não porque nós não nos mostramos o suficiente, mas sim como um reflexo do que as pessoas ainda não conseguem encarar de frente.

*

¹queer: termo genérico para minorias sexuais que não são heterossexuais, heteronormativas ou que não seguem a binária de gênero (masculino-feminino). a princípio, era usado pejorativamente (queer significa literalmente estranho, esquisito em inglês), mas o termo tem sido reapropriado e ressignificado pela comunidade LGBT+ nos últimos anos.